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O mês de maio representou uma verdadeira montanha russa para o dólar. Veja no gráfico a seguir. Ele abriu perto de R$ 3,95 e ficou flutuando em torno desse valor até lá pelo dia 10, quando começou a subir. O relacionamento tenso entre Congresso e Executivo colocou em dúvida a aprovação de uma reforma da Previdência de fôlego, sem a qual o Brasil quebra e/ou recorre ao financiamento via emissão de moeda no futuro – o que significa a volta da inflação alta. No dia 20, o dólar batia R$ 4,10.

Por que o dólar sobe nessas situações? Porque a perspectiva de um país quebrado e desorganizado espanta investimentos por aqui. Os investidores saem de ativos em real para ativos em dólar, o que aumenta a demanda pela moeda americana no Brasil – fazendo com que ela fique mais cara.

Na verdade, esse movimento não precisa nem ocorrer. A mera expectativa de que ele aconteça no futuro já é suficiente para empurrar o dólar para cima. Se se espera um aumento no futuro, compensa comprar dólar no presente para ganhar dinheiro com a diferença. E algumas pessoas compram dólar para se proteger desse movimento – como empresários que importam insumos do exterior, os quais ficariam bem mais caros com a eventual alta do dólar. Tudo isso contribui para aumentar a demanda pela moeda estrangeira, levando para cima o preço do dólar já hoje.

No último terço do mês as coisas acalmaram, com a melhora na relação entre o Congresso e a presidência. O Congresso, que vinha impondo derrotas ao presidente, passou a colaborar mais com sua agenda. Por exemplo, o Senado aprovou a MP da reforma administrativa, que corria risco de caducar, garantindo a consolidação das mudanças ministeriais do governo Bolsonaro.

As manifestações de 26 de maio também amenizaram o clima entre os poderes. Em vez de incitar um antagonismo entre Executivo, Congresso e Judiciário, elas focaram mais na reforma da Previdência e no pacote anticrime do ministro Sérgio Moro. Ao longo da semana que se seguiu, o presidente Bolsonaro se reuniu com os representantes dos três poderes, na tentativa de firmar um pacto em favor de pautas como a reforma da Previdência.

E, com as coisas mais calmas e uma perspectiva mais favorável à reforma da Previdência, o dólar seguiu o caminho contrário e foi caindo. Terminou o mês em R$ 3,92, abaixo do valor em que havia começado.

Toda essa história que contei tem a ver com eventos internos à economia brasileira. Mas a taxa de câmbio é um preço relativo, ou seja, do dólar em comparação com o real. Será que parte desse movimento do dólar não reflete eventos que estão acontecendo nos Estados Unidos e na economia mundial – e que fariam com que o dólar ficasse mais forte em relação à maioria das moedas no mundo?

Já vimos algo nessa linha recentemente. A instabilidade ensejada pela guerra comercial entre Estados Unidos e China leva investidores no mundo a correr para ativos mais seguros – em particular, para os títulos da dívida pública americana. Isso faz com que o dólar se valorize frente a todas as outras moedas.

Para tirar a prova dos nove, o próximo gráfico mostra a taxa de câmbio do real contra o dólar e outras quatro moedas: o euro, o iene japonês, o peso mexicano e o peso argentino. Junto com o dólar, o euro e o iene são as três mais importantes moedas no mundo. Coloquei também as moedas do México e da Argentina, pois representam as principais economias da América Latina junto do Brasil. Normalizei o valor inicial (do dia 2 de maio) dessas moedas em 100 (veja observação no final do texto).

Se tudo fosse culpa do dólar ficando mais forte no mundo, não deveríamos observar movimentos semelhantes ao do gráfico anterior para as outras moedas. Mas note que elas se movem de maneira muito parecida com a do dólar, principalmente ao se valorizarem frente ao real no segundo terço de maio, e ao reverterem essa tendência no final do mês.

Isso sugere que a montanha russa do dólar no mês passado foi resultado principalmente de eventos internos à economia brasileira.    

Fonte dos dados: UOL Economia (valores correspondem ao câmbio de venda de cada moeda)

Observação: no segundo gráfico, estou normalizando o valor do dia 2 de cada moeda em 100. Isso indica que os valores mostrados no gráfico devem ser entendidos como relativos a esse dia inicial. Por exemplo, na nossa série renormalizada, o valor para o dólar no dia 3/5 é igual a 99,5. Isso indica que o dólar está 0,5% mais barato no dia 3, em relação ao dia 2. No dia 20 (o pico da série), o valor é 103,69, isto é, está 3,69% mais caro do que no início do mês. Ajustes similares foram feitos nas cotações das outras quatro moedas.
Isso é realizado para facilitar a visualização: por exemplo, o valor do dólar está em torno de R$ 4,00, enquanto o do peso mexicano fica na vizinhança dos R$ 0,20; a normalização em valor inicial comum faz com que as séries fiquem mais próximas, permitindo avaliar como elas andam juntas. Além disso, não estamos interessados no valor em si da moeda, mas sim em como ela variou no tempo -- isto é, como se valorizou e desvalorizou frente ao real, tomando como referência o primeiro dia útil do mês.

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A montanha russa do dólar em maio | Gráfico da Semana

O mês de maio representou uma verdadeira montanha russa para o dólar. Veja no gráfico a seguir. Ele abriu perto de R$ 3,95 e ficou flutuando em torno desse valor até lá pelo dia 10, quando começou a subir. O relacionamento tenso entre Congresso e Executivo colocou em dúvida a aprovação de uma reforma da Previdência de fôlego, sem a qual o Brasil quebra e/ou recorre ao financiamento via emissão de moeda no futuro – o que significa a volta da inflação alta. No dia 20, o dólar batia R$ 4,10.

Por que o dólar sobe nessas situações? Porque a perspectiva de um país quebrado e desorganizado espanta investimentos por aqui. Os investidores saem de ativos em real para ativos em dólar, o que aumenta a demanda pela moeda americana no Brasil – fazendo com que ela fique mais cara.

Na verdade, esse movimento não precisa nem ocorrer. A mera expectativa de que ele aconteça no futuro já é suficiente para empurrar o dólar para cima. Se se espera um aumento no futuro, compensa comprar dólar no presente para ganhar dinheiro com a diferença. E algumas pessoas compram dólar para se proteger desse movimento – como empresários que importam insumos do exterior, os quais ficariam bem mais caros com a eventual alta do dólar. Tudo isso contribui para aumentar a demanda pela moeda estrangeira, levando para cima o preço do dólar já hoje.

No último terço do mês as coisas acalmaram, com a melhora na relação entre o Congresso e a presidência. O Congresso, que vinha impondo derrotas ao presidente, passou a colaborar mais com sua agenda. Por exemplo, o Senado aprovou a MP da reforma administrativa, que corria risco de caducar, garantindo a consolidação das mudanças ministeriais do governo Bolsonaro.

As manifestações de 26 de maio também amenizaram o clima entre os poderes. Em vez de incitar um antagonismo entre Executivo, Congresso e Judiciário, elas focaram mais na reforma da Previdência e no pacote anticrime do ministro Sérgio Moro. Ao longo da semana que se seguiu, o presidente Bolsonaro se reuniu com os representantes dos três poderes, na tentativa de firmar um pacto em favor de pautas como a reforma da Previdência.

E, com as coisas mais calmas e uma perspectiva mais favorável à reforma da Previdência, o dólar seguiu o caminho contrário e foi caindo. Terminou o mês em R$ 3,92, abaixo do valor em que havia começado.

Toda essa história que contei tem a ver com eventos internos à economia brasileira. Mas a taxa de câmbio é um preço relativo, ou seja, do dólar em comparação com o real. Será que parte desse movimento do dólar não reflete eventos que estão acontecendo nos Estados Unidos e na economia mundial – e que fariam com que o dólar ficasse mais forte em relação à maioria das moedas no mundo?

Já vimos algo nessa linha recentemente. A instabilidade ensejada pela guerra comercial entre Estados Unidos e China leva investidores no mundo a correr para ativos mais seguros – em particular, para os títulos da dívida pública americana. Isso faz com que o dólar se valorize frente a todas as outras moedas.

Para tirar a prova dos nove, o próximo gráfico mostra a taxa de câmbio do real contra o dólar e outras quatro moedas: o euro, o iene japonês, o peso mexicano e o peso argentino. Junto com o dólar, o euro e o iene são as três mais importantes moedas no mundo. Coloquei também as moedas do México e da Argentina, pois representam as principais economias da América Latina junto do Brasil. Normalizei o valor inicial (do dia 2 de maio) dessas moedas em 100 (veja observação no final do texto).



Se tudo fosse culpa do dólar ficando mais forte no mundo, não deveríamos observar movimentos semelhantes ao do gráfico anterior para as outras moedas. Mas note que elas se movem de maneira muito parecida com a do dólar, principalmente ao se valorizarem frente ao real no segundo terço de maio, e ao reverterem essa tendência no final do mês.

Isso sugere que a montanha russa do dólar no mês passado foi resultado principalmente de eventos internos à economia brasileira.    

Fonte dos dados: UOL Economia (valores correspondem ao câmbio de venda de cada moeda)

Observação: no segundo gráfico, estou normalizando o valor do dia 2 de cada moeda em 100. Isso indica que os valores mostrados no gráfico devem ser entendidos como relativos a esse dia inicial. Por exemplo, na nossa série renormalizada, o valor para o dólar no dia 3/5 é igual a 99,5. Isso indica que o dólar está 0,5% mais barato no dia 3, em relação ao dia 2. No dia 20 (o pico da série), o valor é 103,69, isto é, está 3,69% mais caro do que no início do mês. Ajustes similares foram feitos nas cotações das outras quatro moedas.
Isso é realizado para facilitar a visualização: por exemplo, o valor do dólar está em torno de R$ 4,00, enquanto o do peso mexicano fica na vizinhança dos R$ 0,20; a normalização em valor inicial comum faz com que as séries fiquem mais próximas, permitindo avaliar como elas andam juntas. Além disso, não estamos interessados no valor em si da moeda, mas sim em como ela variou no tempo -- isto é, como se valorizou e desvalorizou frente ao real, tomando como referência o primeiro dia útil do mês.
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