Covid-19 e a economia: um resumo da discussão

O texto desta semana é um sumário das ideias que andam circulando por aí – as boas e as ruins.


Sobre a epidemia em si: há luz no fim do túnel?

A vida só vai voltar a algo que se possa chamar de normal depois da vacina, provavelmente não antes do segundo trimestre do ano que vem. Tratamentos melhores e mais eficazes podem vir antes, mas afetam menos o bem-estar geral da sociedade e as decisões de política pública. Sem a vacina, o vírus nunca é "permanentemente" derrotado. Não tem jeito: a queda nas contaminações e no parâmetro de reprodução (chamado de R0) que vemos hoje em diversos lugares do mundo se deve a mudanças comportamentais. Aberturas mal desenhadas e quarentenas meia-boca vão gerar crescimento dos casos (R0>1) mesmo onde a situação está agora sob controle. Há que vigiar e punir.

Das evidência que temos, sabemos que a letalidade da doença é menor para pessoas abaixo de 50 anos que não possuem comorbidades. A idade média dos que faleceram por Covid-19 na Itália, por exemplo, é de 79,5 anos de idade. Isso não diminui a dimensão da tragédia nem que garante a segurança dos mais jovens, mas é uma informação importante para desenhar políticas públicas.

A famigerada luz no fim do túnel que mais parece um trem é a tal imunidade de manada: tanta gente pega a doença que o vírus não consegue mais se propagar, pois a quantidade de imunes fica muito alta. Suponhamos que 70% das pessoas se contaminem – esse é mais ou menos o percentual que precisamos. Nessas circunstâncias o sistema de saúde obviamente colapsa, o que inclusive implica que as mortes devidas a outras causas vão aumentar também. Ademais, as "baixas" taxas de mortalidade estimadas para a Covid-19 apenas o são sob a condição de que os doentes tenham acesso a tratamento. Variou esse acesso, varia a mortalidade. Para quanto iria a mortalidade sem tratamento disponível devido ao colapso do sistema de saúde? Não sabemos, mas 1% não nos parece ser um número exagerado. De 200 milhões de brasileiros, 70% são 140 milhões, o que implicaria em mais de 1 milhão de mortos até chegarmos à imunidade de manada. Sem comentários.

E a Covid-19 no Brasil?

Neste momento, Brasil e México, de governos negacionistas, são os piores do mundo não em termos de nível, mas em velocidade de avanço. A taxa de crescimento não mostra, até o dia de hoje, qualquer tendência de arrefecimento. Países que sofreram muito com a pandemia, quando no mesmo estágio em que estamos (em termos de dias após a décima morte/centésimo caso registrado), já mostravam queda na inclinação do gráfico de crescimento de casos/mortes. Com o padrão comportamental atual e a enorme carência de testes para identificar e isolar, o cenário seguirá desolador. 
 
O que deveríamos ter feito e estar fazendo?

Inicialmente, uma contenção maciça de circulação das pessoas – coisa que nunca aconteceu. Nesse ínterim, escalar a capacidade de testes com todas as nossas forças. Produzir máscaras até não poder mais. Estabelecer protocolos rígidos de abertura, com a imposição do uso de máscaras na rua e de revezamentos nos locais de trabalho para manter algum distanciamento físico, por exemplo. Testar para sintomas todo dia na entrada das fábricas e escolas. Aplicar testes aleatoriamente para identificar focos. Etc. etc. etc. O que fizemos nesse tempo todo a respeito disso tudo? Nada. Não tem como dar certo.

A quarentena cega é uma política ruim. Muita gente, com as devidas precauções e protocolos, poderia estar voltando a circular e trabalhar. Mas pior do que a quarentena cega é uma abertura mal feita. 

 
A economia precisa funcionar!

Se tivéssemos alguma capacidade de planejamento e coordenação, poderíamos e deveríamos estar voltando. Mas tomemos como hipótese o estado das coisas como descrito nos parágrafos anteriores, isto é, Brasil sendo Brasil, não Coreia. Você decreta abertura de tudo. Belo. Suponhamos que um bom número de pessoas siga as diretrizes do governo – muitas não as seguirão por amor à própria vida e a de seus familiares. O que acontece? Mortes começam a bombar, hospitais cheios, fila em cemitérios. O que você, prezado leitor, acha que acontece? Bingo, um lockdown ainda mais severo, mais poupança precautória, mais temor e uma economia ainda mais frágil. O tiro sai pela culatra. Em outras palavras, se não houver muito planejamento, muito teste e muita mudança comportamental, não há como resolver a catástrofe na economia! Não existe essa opção que o presidente vive aventando por aí: "Vamos trabalhar, pessoal!” Não há esse tradeoff. Ponto final, por favor.   


Qual política econômica?

Como a política econômica pode contribuir nesse momento, lembrando sempre que mágica não existe e que o choque adverso é de proporções bíblicas?

Temos que ajudar as pessoas que estão ficando desempregadas, via depósitos de 600 reais e seguro desemprego. E temos que gastar mais com máscaras, ventiladores, camas, enfermeiros e que tais – podíamos cortar o salário da maioria dos servidores que ganham acima de dez salário mínimos e aumentar o dos enfermeiros, não? O déficit vai mesmo subir, paciência. Nada de aumentar alíquotas de impostos agora ou ressuscitar imposto morto. Uma taxação extra sobre riqueza não iria mal neste momento, mas o problema é que tem combinar não apenas com os russos, mas com todos os outros países… Boa sorte tentando.

No âmbito da política monetária, temos que levar o juro para o patamar mais baixo possível. A inflação está morta, então precisamos tentar facilitar um pouco a vida de quem está devendo e ajudar a conter, na medida do possível, uma dinâmica perversa de dívida pública. Esqueça essa história de dominância fiscal e blábláblás similares: o objetivo não é ajudar um governo fiscalmente picareta a pagar suas contas (caso de 2012 e 2013). O choque fiscal foi enviado por algum tipo de deus com d minúsculo, ou no linguajar do economista, foi ortogonal aos incentivos. Não tem problema dizer que juro menor ajuda o fiscal. É verdade, e é o correto. Deixemos de bitolices. Com inflação indo para 1% e desemprego para 20% no fim de 2020, como criticar reduções adicionais da Selic? 
 
E depois? Bom, não existe mágica, não existe MMT, não existe desaparecimento fabuloso da dívida. Vamos ter que pagar lá na frente. Preferencialmente com redução de gastos que não geram tantos ganhos para nós como sociedade, como por exemplo juízes ganhando 100 mil reais por mês, entre outras coisitas estranhas. E alguma alta de tributos temporária, por alguns anos. Fazer o quê? O juro Selic também vai ter que subir lá na frente. Não dá para ficar muito baixo para sempre, não gostamos de inflação e ela sim pode até bater à porta em 2023. Mas está longe, não?
 
Investimento público, sério mesmo?

Dá até tristeza ver gente pedindo a volta do investimento público para reanimar a economia brasileira. Parece que já tentamos essa estratégia algumas vezes… Faz tempo que não gera frutos visíveis, fora os podres, claro. A dívida subindo rapidamente e o pessoal querendo que o governo faça o quê? Estrada? Navios nacionais? Só pode ser piada. Aceito subsídio para produção de máscaras e luvas. Nada mais. O importante agora é tentar evitar mortes e o fechamento de empresas privadas produtivas, não asfaltar a Transamazônica ou produzir fragatas. Isso deveria ser óbvio. Que cansaço!

 
Epílogo

Trata-se de um pedido às autoridades e um aos economistas, na verdade. Ao governo: enviem uma turma para ver o que estão fazendo lá na Coreia – vamos tentar copiar. Aos economistas: nesse momento difícil, agarram-se aos arcabouços teóricos e aos dados – nada de ortodoxias precautórias  ou truques de economágica. Menos Twitter e xingamentos, mais equações diferenciais e trocas de dados e códigos computacionais.


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