Por que políticas de combate ao coronavírus têm de levar em conta o comportamento da população?

Políticas públicas de combate ao Covid-19 precisam levar em conta a forma como as pessoas reagem as elas. Ações recentes da prefeitura de São Paulo nos ajudam a entender esse ponto.

Inicialmente, a prefeitura tornou mais restritivo o rodízio municipal de veículos. Nos dias pares só poderiam circular carros de placa par; nos dias ímpares, apenas carros de placa ímpar. A ameaça de multa e pontos na carteira deveria incentivar um conjunto de pessoas a ficar em casa, aumentando o distanciamento social.
 
Mas é preciso atentar que as pessoas potencialmente afetadas pelo rodízio têm outras opções de locomoção, como táxis, corrida por aplicativos e transporte público. Essas alternativas são problemáticas, porque envolvem maior contato com outros indivíduos, facilitando a difusão do vírus.

Além disso, muitos já mudaram de comportamento em face das campanhas do governo pelo isolamento social e das notícias do espalhamento do coronavírus. Estão ficando em casa.  O novo rodízio não afetaria esse contingente. 

Os indivíduos passíveis de mudança são justamente aqueles que ainda não alteraram seu comportamento até agora – seja porque não querem, seja porque não podem e precisam circular. O mais provável é que, com o novo rodízio, estes optem por outros modos de transporte, o que não ajuda (e até atrapalha) no combate ao covid-19.

De qualquer forma, a prefeitura acabou suspendendo a política depois de uma semana. Em seu lugar, resolveu antecipar três feriados, criando um período de seis dias consecutivos em que esperava manter as pessoas em casa. Novamente, pense em quem poderia mudar de comportamento como resultado do feriado. Para quem já está em quarentena, nada muda. Para trabalhadores essenciais, também não. Mudaria para aqueles que trabalhariam nesses dias.

O problema é que, entre essas pessoas, há quem não está nem um pouco preocupado com a doença. E um feriado longo muito provavelmente não afetaria sua decisão de não circular. Na verdade, é um convite a sair da cidade e ir para o litoral, por exemplo.

Isso indica que o desenho de políticas públicas precisa levar em conta esses potenciais comportamentos, que jogam contra seu próprio propósito. Campanhas de conscientização certamente podem ajudar a mudar as ações das pessoas. Mas aqui a batalha do convencimento é difícil, pois há fontes de informação atuando em sentido contrário. O próprio presidente Bolsonaro, com seus discursos e ações, contribui para isso.

Bolsonaro perdeu bastante suporte com o avanço do covid-19 no Brasil. Mas ainda tem apoio considerável. Seus discursos contrários a políticas de isolamento social não ajudam no combate à doença. Tampouco suas ações de interagir fisicamente com apoiadores. Afinal, isso mexe com o comportamento de diversas pessoas, especialmente de quem confia no presidente.

O apoio insistente a um remédio supostamente milagroso –  cujos efeitos ainda não  conhecemos inteiramente – também pode jogar a favor da doença. Algumas pessoas podem deixar de tomar ações preventivas porque acreditam que há um medicamento que pode curá-las caso peguem o vírus.

Bolsonaro ainda pode dificultar a recuperação da economia, quando a doença começar a se dissipar. Isso porque há outro grupo de indivíduos na população: aqueles que estão com muito medo. Esse grupo só tende a crescer, à medida que o número de casos e mortes avança. Quando as atividades econômicas começarem a se reabrir, essas pessoas precisarão ter segurança para voltar à vida normal.

Para tal, terão de confiar nas informações do governo de que sair de casa é seguro. Mas o comportamento atual do presidente certamente não ajudará em nada nesse movimento futuro de volta à normalidade.


COLUNA PUBLICADA NA FOLHA DE SÃO PAULO


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