Reservas x Palitos

Lula, o ex-presidente, tuitou sobre a herança bendita do PT no que se refere a reservas internacionais. Sem elas, segundo ele, não poderíamos estar importando nem sequer um palito.

O tuíte pegou carona na fala do ministro Paulo Guedes sobre os retornos rechonchudos que as nossas reservas em dólares  ̶  em grande parte acumuladas durante o governo do PT  ̶  geraram para o país neste momento de aperto. Retornos que o Banco Central, gestor dos recursos, agora repassará (após aprovação do Conselho Monetário Nacional) a um Tesouro em apuros. Há tanto material para comentar nesse tuíte de Lula que é melhor começar pelo princípio. 

Em 2003, quando Luis Inácio da Silva estreou na presidência, as reservas brasileiras eram de fato muito baixas.  Por volta de 30 bilhões de dólares. Hoje elas são superiores a 300 bilhões de dólares. O período em que a acumulação se deu de modo intenso foram os anos de 2003 a 2007, que, além de terem o PT na presidência, foram os anos dourados das commodities (o chamado superciclo) e da tranquilidade nos mercados financeiros internacionais. Jorravam dólares pelas fronteiras do país, e para evitar um movimento de apreciação descomedida da moeda nacional, o BC de então passou a frequentar o mercado cambial, onde adquiria dólares, enxugava a liquidez com emissão de dívida e os depositava nos Estados Unidos a taxas de retorno baixinhas, baixinhas. Consequentemente, acumulamos esse colchão, que nos ajudou a navegar a crise de 2009 e nos está ajudando agora.

Mas note o leitor o seguinte: essa operação tem custos. Quando a crise bate, o benefício fica transparente, mas durante todos os anos de calmaria, o custo é longe de ser trivial. Pelo seguinte: para enxugar a liquidez gerada pela aquisição de dólares, o governo emite dívida. Agora a diferença entre os juros dessa dívida e o retorno do investimento em dólares não é muito grande, mas durante muito tempo foi estupenda. Não vale esquecer dessa parte na hora de contar a história...

De onde vêm os 500 bilhões de ganhos em reais, mencionado no tuíte? Bom, temos uns 300 bilhões de reservas em dólares. Quando, não tanto atrás, a taxa cambial estava ali nos 4, isso correspondia mais ou menos a 1,2 trilhão de reais. Agora que ela está acima de 5,5, o valor em reais pulou para quase 1,7 trilhão. É como se você tivesse comprado uma casa e o seu valor se incrementasse em 25% em um ano. 

Transferir esse ganho para o Tesouro Nacional como quer o governo pode ser enquadrado como crime de contabilidade criativa? Legalmente, não.  A lei 13.820 autoriza esse tipo de transferência em circunstâncias especiais  ̶  acho que podemos concordar que o momento é especial (mundo acabando etc). 

É verdade que sem as reservas não estaríamos importando nem um palito? Não é. Sem as reservas, muito provavelmente a moeda nacional estaria mais fraca e, consequentemente, o palito importado sairia mais caro. Mas as reservas não são usadas diretamente na importação de palitos. O governo consome poucos bens internacionais. 

Lula se indaga no tuíte: "Se deixamos tantas reservas, como podem dizer que quebramos o país?" Vamos usar de novo o exemplo da casa. Economizamos uma grana lá atrás, compramos a casa, surfamos na valorização do imóvel e, otimistas, começamos então a gastar com roupas caras, muitos livros, viagens exóticas e carros novos. Tudo isso com o mesmo salário de antes. Depois de um tempo, estaremos quebrados, ainda que a casa ainda esteja de pé.  

COLUNA PUBLICADA NA FOLHA DE SÃO PAULO


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