Retrospectiva sem perspectiva

O fim do ano vai se aproximando e, como sempre, parece que 2019 passou excepcionalmente rápido. Como resumir esse primeiro ano do governo Bolsonaro e o que esperar dos próximos? Como um grupo de liberais progressistas, nossa avaliação, em uma linha, é: foi bem na economia e mal em quase todo resto. Para 2020, as perspectivas são razoáveis: crescimento acima de 2%, inflação baixa, e leve queda no desemprego. O problema, contudo, é que depois de 2020 vem 2021, 2022, 2023… 2030...


A grande notícia do ano no campo da economia: a reforma da Previdência, muito boa ainda que não ideal, foi aprovada nas duas casas. Não a subestimemos, caros leitores, pois sem ela o país estaria se encaminhado a passos céleres para o desastre fiscal, que seria antecipado por um impacto nefasto sobre as expectativas – que influenciam investimentos, taxas de juros e de câmbio, entre outros números. Mérito do governo, que propôs. E do Congresso, que não titubeou. E algum demérito para o presidente, que nunca foi a campo apoiar, e chegou mesmo a atrapalhar, por conta de suas quizílias pessoais com deputados e senadores.

A inflação caiu morta com o belo trabalho iniciado no final do governo Dilma, consolidado durante o interregno Temer e continuado no governo de Bolsonaro. A grande retomada da credibilidade da política monetária abriu espaço para uma queda sem precedentes na taxa básica de juros que, ao que tudo indica, ainda poderá cair um pouco mais. Muito bom. Além disso, Ilan e depois Roberto Campos deram impulso, ambos, ao projeto BC+, a agenda que trata do problemão dos elevados spreads bancários no Brasil. É uma área mais difícil, cheia de nuanças, onde alguma dose de experimentalismo é saudável. O cuidado, claro, é não ultrapassar a linha que separa experimentalismo de populismo econômico. Aguardemos 2020. 

A aprovação da nova Previdência, os juros mais baixos e, principalmente, uma base de comparação fraquíssima depois de anos a fio de crescimento pífio, quase certamente vão desembocar em um PIB crescendo acima de 2% em 2020. A economia já se recupera, a construção se ergueu das cinzas e o PIB do terceiro trimestre surpreendeu positivamente. Os riscos para esse cenário? Eminentemente externos: uma escalada da guerra comercial capitaneada por Donald Trump, o Brexit e o ultra incerto futuro de nossos hermanos ao sul.

Mas o que mais queremos enfatizar é que mirar em 2020 é um equívoco. O foco tem que ser o PIB de 2030, ou melhor, o que podemos fazer em 2020 para amentarmos as chances de um PIB real bem maior em 2030. Em relação a isso, não estamos otimistas. Primeiro porque qualquer que seja o governo, o ímpeto de reformas estruturais sempre se arrefece após o primeiro ano. Segundo, porque falta coerência de diagnóstico e rumos dentro do próprio governo. Paulo Guedes, em que pese alguns deslizes aqui e outros acolá, como no caso da ideia estapafúrdia da CPMF, tem a cabeça na direção certa. Por exemplo, o ministro gostaria de privatizar mais – e teria nosso apoio! –, mas não tem a chancela do presidente para essa empreitada politicamente embaralhada.

Apelando para uma metáfora militar, Bolsonaro está mais para Geisel do que para Castello Branco, o que significa que, na economia, está mais próximo de Dilma do que de Temer. Vai ser difícil tornar a economia brasileira mais eficiente com esse conflito de visões dentro do próprio governo. Já seria difícil de todo modo.

E ainda que talvez seja prematuro um vaticínio mais veemente sobre o tema, a impressão que temos é que a agenda dos costumes vai ganhando peso, enquanto a econômica vai perdendo. Desarmada a bomba da Previdência, as energias do núcleo duro estão se direcionando para questões ligadas ao conservadorismo social. Esse, que objetamos em sua integridade, não ajuda a economia e pode, inclusive, prejudicá-la.

A visão tosco-nacionalista da questão ambiental, por exemplo, pode nos custar menos investimentos estrangeiros e menos comércio de bens e serviços. Ser visto como Patinho Feio pela comunidade internacional nunca ajuda, e tampouco devanear que o governo Trump está aí para nos ajudar por conta de afinidades pessoais. A imaturidade do Ministério das Relações Exteriores é assustadora.

Similarmente para o caso da educação. O resultado do Pisa 2018, recentemente divulgado, mostra que somos um fracasso absoluto no ensino de matemática, por exemplo. Em vez de colocarmos 100% de energias, foco e recursos nisso, nosso ministro acha melhor atribuir um desastre que é nacional ao governo do PT. Como caminhar para frente assim? Atitude mais honrada seria assumir que está horrível desde sempre e propor mudanças de fundo, como reformar a governança no setor, importar práticas internacionais e nacionais – como é feito em Sobral –, valorizar e cobrar professores e diretores, associar financiamento a resultados, experimentar com programas localizados de vouchers para educação etc. Mas a preocupação é outra: demonizar a tal cartilha gay e sugerir aos alunos que denunciem professores aos pais (vejam, não por faltar à aula ou ensinar mal, mas por suas visões gayzistas-globalizantes-esquerdistas).

O problema da medievalização no Ministério da Educação é gravíssimo para o longo prazo. Para o tal PIB de 2030. Os jovens precisam aprender mais matemática e também a respeitar sim a orientação sexual dos outros. Sobre a chegada de terrolavoplanistas nas pastas de cultura, preferimos não comentar.

Em suma, em parte por mérito do governo, teremos um 2020 melhor do que 2019 no campo da economia. Infelizmente, no entanto, isso importa menos do que parece.


COLUNA PUBLICADA NA FOLHA DE SÃO PAULO

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