Tem mais de um PIB?

Não tem não. PIB é PIB e mede, imperfeitamente, tudo que é produzido dentro das fronteiras físicas do país – tanto bens (mais fácil mensuração), como serviços (mais difícil). Há poucos dias, o IBGE divulgou os números para o PIB do quarto trimestre de 2019. Vieram abaixo do esperado, e o esperado já não era nenhuma maravilha.   Fechou 2019 em 1,1%, abaixo de 2018 e de 2017, ambos com 1,3%.

Noticiar PIB fraco é chato, mas o governo – e não só este, que fique claro – não deveria fazer contorcionismos para tentar mudar a realidade. Tremenda bobagem esse papo de PIB privado versus PIB público, e ao insistir nessa narrativa a equipe econômica pode sair com  a credibilidade lanhada.

Até porque o crescimento desapontador da economia não é (quase nunca) culpa exclusiva do governo da vez – do mesmo modo que o resultado terrível dos jovens brasileiros no teste PISA não é culpa apenas do governo anterior, como sugeriu nosso douto ministro do Português.

Há duas maneiras de olharmos o PIB: pela óptica da oferta e pela óptica da demanda. De acordo com a primeira, o PIB é dado pela soma do que é produzido nos três grandes setores da economia: a indústria, os serviços e a agricultura. Preste atenção:  não tem nada de público versus privado aí nessa divisão, certo? PIB é PIB.

Agora, para entendermos a óptica da demanda e depois a confusão dos dois PIBs, pergunte-se: quem consome esses bens e serviços todos? As pessoas que: (A) adquirem máquinas e capital físico para montar uma fábrica; (B) as que compram arroz, ingresso de cinema, carro novo,  calça nova e também pagam a mensalidade da escola do filho; e, finalmente, (C) os estrangeiros que compram nossas coisas e as levam para consumir alhures.

Chamamos (A) de “investimento”, (B) de “consumo”,  e (C) de “exportações”.  Investimento e consumo podem se originar via demanda do governo ou do setor privado. Ambos podem requisitar cimento para fazer uma estrada.

Como bens e serviços podem ser fornecidos também por produtores externos por meio da importação, subtraímos essa última rubrica da conta do PIB (lembre-se: tem que ser produzido internamente).

Assim, temos:

PIB = Serviços + Indústria + Agricultura

e também

PIB = Consumo Privado + Consumo Governo + Investimento Privado + Investimento do Governo + Exportações – Importações

Essas duas medidas diferentes têm que dar o mesmo resultado, moçada!

Olhe para as duas “equações” simultaneamente: se a produção industrial cai porque o investimento do governo caiu, o PIB caiu e ponto final. Sabe-se lá, produziu-se menos cimento para estradas públicas porque, devido ao ajuste fiscal, muitas delas não foram construídas; por isso, o setor de cimento empregou menos gente.

Isso não é um argumento para o governo gastar mais em estrada, pelo amor de Deus. Talvez devesse, talvez não. O que o exemplo deixa bem claro, no entanto, é que não existe isso de PIB de mercado versus PIB do governo. Qualquer que seja a origem da queda da demanda por cimento, haverá menos gente empregada na indústria do cimento e o crescimento do PIB vai dar uma minguada.

Pode ser que o governo, não fazendo a estrada, abrisse no futuro uma chance de redução de impostos que, por sua vez, levasse o setor privado a investir mais em estradas? É possível, certamente. Mas nesse caso não veríamos queda na produção de cimento: uma demanda substituiu a outra. O PIB da indústria não teria sofrido. Se sofreu, é porque esse mecanismo não funcionou perfeitamente (e não funciona mesmo, a propósito).

O PIB veio fraco, e isso não é inteiramente culpa desse governo. Em vez de tentar varrer a realidade para baixo do tapete, melhor tocar o barco e ir com tudo para cima das reformas tributária e administrativas. O PIB de 2033 depende é disso.   

 

COLUNA PUBLICADA NA FOLHA DE SÃO PAULO

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