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A inflação deu uma bela disparada. O último dado que temos é o do IPCA-15, uma espécie de prévia do mais conhecido IPCA (o indicador que norteia as ações do Banco Central), divulgada com dados colhidos até a metade do mês em nove regiões metropolitanas. Bateu nos dois dígitos! Isso mesmo, chegamos a 10% acumulados em 12 meses, ou seja, no ano que termina no meio de setembro. No ano que termina em 31 de dezembro, as apostas são de que esse número cairá um pouco, para a vizinhança de 8,5%. Ainda assim, bem acima dos 3,5% , meta estipulada para o ano-calendário de 2021. A culpa é de quem? O que deve ser feito? É pra ficar assustado?


A culpa costuma ser sempre dos outros, quando quase nunca é verdadeiramente. Mas, nesse caso, parece que a verdade é mais nuançada mesmo. Ainda que procurando bem, vai ser difícil encontrar nas séries históricas um período tão catastrófico em termos de choques adversos externos empurrando a inflação para cima: (i) energia cara; (ii) commodities em dólares subindo forte; (iii) clima bagunçando a produção agrícola; e (iv) rupturas relevantes nas cadeias produtivas mundiais. O problema não é exclusivamente nacional, nem aflige apenas os países emergentes. A inflação no mundo desenvolvido está rodando perto dos 4% recentemente, fenômeno que há muito não se via.

Há os que argumentam que o Banco Central foi muito ousado em 2020, ao reduzir a taxa de juros para 2% e sinalizar que ela aí ficaria por um bom tempo. Mas julgamentos a posteriori são sempre problemáticos. Mais honesto seria se colocar na pele da autoridade monetária lá em maio de 2020, com a covid-19 pegando fogo, cenários de crescimento negativo na casa dos 8%, expectativas de inflação bem abaixo da meta. Muita gente previa, caríssimos leitores, um cenário de fim do mundo.

A alta da inflação não deveria tirar o sono de ninguém. O que justificaria uma noite mal dormida seria um Banco Central inerte, passivo. Mas não é o caso: os juros já subiram de 2% para 6,25%. E vão subir ainda mais, ao que tudo indica (a própria comunicação do Banco Central assim sinaliza). O mais provável hoje é que a Selic feche o ano de 2021 em 8,25%. Como a inflação esperada para 2022 deverá, no fim de 2021, estar por volta de 4,5%, teremos no Brasil um dos juros reais mais altos do mundo novamente.

O sinal mais óbvio de que o Banco Central não tem sido complacente é que os juros foram elevados fortemente em meio a um cenário econômico de desemprego muito, mas muito elevado (como pode uma economia com tanto desemprego estar sofrendo de excesso de demanda?). Outro sinal: as expectativas de inflação do mercado para 2022 estão bem perto de 4%, mesmo com o tal do IPCA-15 batendo 10%. O risco na verdade, olhando para frente, é de errarmos na dose do remédio e terminarmos com uma Selic muito elevada. Os choques adversos de oferta que mencionamos acima já vão atrapalhar a recuperação da economia. Inflação a 4% em vez de 3,5% é basicamente irrelevante. Desemprego a 14%, não.

COLUNA PUBLICADA NA FOLHA DE SÃO PAULO

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A inflação brasileira

A inflação deu uma bela disparada. O último dado que temos é o do IPCA-15, uma espécie de prévia do mais conhecido IPCA (o indicador que norteia as ações do Banco Central), divulgada com dados colhidos até a metade do mês em nove regiões metropolitanas. Bateu nos dois dígitos! Isso mesmo, chegamos a 10% acumulados em 12 meses, ou seja, no ano que termina no meio de setembro. No ano que termina em 31 de dezembro, as apostas são de que esse número cairá um pouco, para a vizinhança de 8,5%. Ainda assim, bem acima dos 3,5% , meta estipulada para o ano-calendário de 2021. A culpa é de quem? O que deve ser feito? É pra ficar assustado?


A culpa costuma ser sempre dos outros, quando quase nunca é verdadeiramente. Mas, nesse caso, parece que a verdade é mais nuançada mesmo. Ainda que procurando bem, vai ser difícil encontrar nas séries históricas um período tão catastrófico em termos de choques adversos externos empurrando a inflação para cima: (i) energia cara; (ii) commodities em dólares subindo forte; (iii) clima bagunçando a produção agrícola; e (iv) rupturas relevantes nas cadeias produtivas mundiais. O problema não é exclusivamente nacional, nem aflige apenas os países emergentes. A inflação no mundo desenvolvido está rodando perto dos 4% recentemente, fenômeno que há muito não se via.

Há os que argumentam que o Banco Central foi muito ousado em 2020, ao reduzir a taxa de juros para 2% e sinalizar que ela aí ficaria por um bom tempo. Mas julgamentos a posteriori são sempre problemáticos. Mais honesto seria se colocar na pele da autoridade monetária lá em maio de 2020, com a covid-19 pegando fogo, cenários de crescimento negativo na casa dos 8%, expectativas de inflação bem abaixo da meta. Muita gente previa, caríssimos leitores, um cenário de fim do mundo.

A alta da inflação não deveria tirar o sono de ninguém. O que justificaria uma noite mal dormida seria um Banco Central inerte, passivo. Mas não é o caso: os juros já subiram de 2% para 6,25%. E vão subir ainda mais, ao que tudo indica (a própria comunicação do Banco Central assim sinaliza). O mais provável hoje é que a Selic feche o ano de 2021 em 8,25%. Como a inflação esperada para 2022 deverá, no fim de 2021, estar por volta de 4,5%, teremos no Brasil um dos juros reais mais altos do mundo novamente.

O sinal mais óbvio de que o Banco Central não tem sido complacente é que os juros foram elevados fortemente em meio a um cenário econômico de desemprego muito, mas muito elevado (como pode uma economia com tanto desemprego estar sofrendo de excesso de demanda?). Outro sinal: as expectativas de inflação do mercado para 2022 estão bem perto de 4%, mesmo com o tal do IPCA-15 batendo 10%. O risco na verdade, olhando para frente, é de errarmos na dose do remédio e terminarmos com uma Selic muito elevada. Os choques adversos de oferta que mencionamos acima já vão atrapalhar a recuperação da economia. Inflação a 4% em vez de 3,5% é basicamente irrelevante. Desemprego a 14%, não.

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