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Falar do Brasil para estrangeiros é perigoso. Nosso país é misterioso e fantástico. Apesar da reputação de violento e incapaz de garantir a segurança de seus cidadãos e turistas, tem uma imagem positiva. É o país da Embraer, do Pelé e do Michel Teló. E quem escapou de ouvir "Ai, se eu te pego" como trilha sonora de algum dos momentos mais inesquecíveis da vida?

Mas nenhum estrangeiro está preparado para a verdade sobre o Brasil. Quando somos questionados e optamos por transparência e sinceridade para tentar explicar o país, invariavelmente passamos por mentirosos.

Afinal, que alemão ou americano mentalmente sadio poderia acreditar que um juiz de direito no Rio de Janeiro pode ganhar mais de R$ 100 mil por mês? O fato se torna ainda mais incrível se considerarmos que o Estado do Rio de Janeiro se encontra em sérias dificuldades financeiras e tem atrasado os salários de seus servidores e a pensão de seus aposentados.

Mas os salários astronômicos no Poder Judiciário não são exclusivos do Rio. Quando mencionamos que em vários outros Estados —inclusive naqueles cuja renda per capita se assemelha à de países da América Central— essas remunerações são mais altas que o teto constitucional, logo observamos o olhar dos interlocutores se distanciando, incrédulo.

Como deixar nossos colegas estrangeiros desconhecerem que o Brasil gasta com aposentadorias e pensões aproximadamente o mesmo que a Itália (como proporção do PIB), apesar de não termos envelhecido ainda? Ou que pensões por morte repõem 100% da aposentadoria do falecido? Podemos passar por impostores, mascates de absurdos, ou por mentes criativas disfarçadas atrás do "physique du rôle" de burocratas de meia-idade?

Sim, mas não nos deixemos ser cerceados por olhares céticos. Depois de expor o alto custo de nossa Previdência, vale ainda discorrer sobre os partidos de esquerda que apoiam o uso do Fundo de Amparo ao Trabalhador para alavancar e multiplicar a riqueza de bilionários. Quando questionados, devemos abrir as portas do Brasil profundo para quem não nasceu aqui.

De vez em quando, podemos até ser desafiados:

- Ah, mas o Brasil é uma democracia! Como podemos ter distorções tão grandes nos salários do setor público em um país democrático?

Em respeito aos amigos estrangeiros, melhor será abster-se de responder com uma gargalhada e tapas na mesa à pergunta tão hilária. Cometa um erro de maior grandeza: tente explicar o funcionamento da democracia brasileira.

Os interlocutores, provavelmente, vão olhar de lado, insinuando que deve se calar. Mas não os deixe escaparem de ouvir sobre os deputados eleitos por voto proporcional no distritão, as dezenas de partidos nanicos, o Fundo Partidário, as malas de dinheiro do Geddel. Eventualmente, você poderá perder o controle das emoções e soltar comentários pouco cavalheirescos sobre a descendência de um proeminente político mineiro.

Depois de ouvir isso tudo, o estrangeiro talvez pergunte:

- Como assim? Se a maioria dos brasileiros é pobre, como podem aceitar tantos privilégios para tão poucos e tanto desperdício?

A emoção será forte e as palavras poderão faltar diante de olhos arregalados, mas solte o verbo:

- Quando Martim Afonso de Sousa chegou à costa do atual Estado de São Paulo...

Texto publicado originalmente na coluna do #PQ na Folha

 

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Brasil para estrangeiros

brasil_exportaçao   Falar do Brasil para estrangeiros é perigoso. Nosso país é misterioso e fantástico. Apesar da reputação de violento e incapaz de garantir a segurança de seus cidadãos e turistas, tem uma imagem positiva. É o país da Embraer, do Pelé e do Michel Teló. E quem escapou de ouvir "Ai, se eu te pego" como trilha sonora de algum dos momentos mais inesquecíveis da vida? Mas nenhum estrangeiro está preparado para a verdade sobre o Brasil. Quando somos questionados e optamos por transparência e sinceridade para tentar explicar o país, invariavelmente passamos por mentirosos. Afinal, que alemão ou americano mentalmente sadio poderia acreditar que um juiz de direito no Rio de Janeiro pode ganhar mais de R$ 100 mil por mês? O fato se torna ainda mais incrível se considerarmos que o Estado do Rio de Janeiro se encontra em sérias dificuldades financeiras e tem atrasado os salários de seus servidores e a pensão de seus aposentados. Mas os salários astronômicos no Poder Judiciário não são exclusivos do Rio. Quando mencionamos que em vários outros Estados —inclusive naqueles cuja renda per capita se assemelha à de países da América Central— essas remunerações são mais altas que o teto constitucional, logo observamos o olhar dos interlocutores se distanciando, incrédulo. Como deixar nossos colegas estrangeiros desconhecerem que o Brasil gasta com aposentadorias e pensões aproximadamente o mesmo que a Itália (como proporção do PIB), apesar de não termos envelhecido ainda? Ou que pensões por morte repõem 100% da aposentadoria do falecido? Podemos passar por impostores, mascates de absurdos, ou por mentes criativas disfarçadas atrás do "physique du rôle" de burocratas de meia-idade? Sim, mas não nos deixemos ser cerceados por olhares céticos. Depois de expor o alto custo de nossa Previdência, vale ainda discorrer sobre os partidos de esquerda que apoiam o uso do Fundo de Amparo ao Trabalhador para alavancar e multiplicar a riqueza de bilionários. Quando questionados, devemos abrir as portas do Brasil profundo para quem não nasceu aqui. De vez em quando, podemos até ser desafiados: - Ah, mas o Brasil é uma democracia! Como podemos ter distorções tão grandes nos salários do setor público em um país democrático? Em respeito aos amigos estrangeiros, melhor será abster-se de responder com uma gargalhada e tapas na mesa à pergunta tão hilária. Cometa um erro de maior grandeza: tente explicar o funcionamento da democracia brasileira. Os interlocutores, provavelmente, vão olhar de lado, insinuando que deve se calar. Mas não os deixe escaparem de ouvir sobre os deputados eleitos por voto proporcional no distritão, as dezenas de partidos nanicos, o Fundo Partidário, as malas de dinheiro do Geddel. Eventualmente, você poderá perder o controle das emoções e soltar comentários pouco cavalheirescos sobre a descendência de um proeminente político mineiro. Depois de ouvir isso tudo, o estrangeiro talvez pergunte: - Como assim? Se a maioria dos brasileiros é pobre, como podem aceitar tantos privilégios para tão poucos e tanto desperdício? A emoção será forte e as palavras poderão faltar diante de olhos arregalados, mas solte o verbo: - Quando Martim Afonso de Sousa chegou à costa do atual Estado de São Paulo... Texto publicado originalmente na coluna do #PQ na Folha   Para ficar por dentro do que rola no Por Quê?, clique aqui e assine a nossa Newsletter.
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