Caim, Abel e o ajuste fiscal

"Adão e Eva com os Meninos Caim e Abel", pintura do italiano Lorenzo De Ferrari (1680-1744)

Em um reino distante, em um tempo remoto, havia uma família com dois filhos tratados diferentemente. Abel nasceu com mau hálito e a mãe nunca quis cuidar dele. Andava sujo pelos cantos da casa. Já Caim era um anjinho de formosura. Nasceu de fralda descartável, cheirava a talco. Se chorava, era de alegria pela vida privilegiada que o esperava. A família vivia em harmonia. Abel alimentava-se das migalhas que Caim deixava cair e raspava os restos do prato do irmão. Era suficiente para tocar a vida para frente. E que primor de menino era Caim: além de bonito e cheiroso, era inteligente e dormia na hora certa!

Mas um dia uma tragédia ocorreu. Uma praga destruiu o milharal. Lobos comeram as ovelhas. E os peixes do lago evoluíram e se tornaram sapos, coaxando mundo afora. O pai da família procurou emprego no castelo do barão. Conseguiu ganhar uma ninharia lavando as cavalariças. Tomou emprestado do vizinho agiota. Com o orçamento apertado, mal dava para comprar o bombom de trufas para a sobremesa de Caim. A mãe passou a lavar roupa para fora. Abel virou flanelinha nas imediações do estádio do Corinthians. Venderam o jumento e depois as galinhas para repagar o agiota.

Até que um dia, o impensável ocorreu: Caim ficou sem seu bombom de trufas depois do jantar.

– Injustiça! Bombons de trufa são meu direito adquirido. Desde que me conheço por gente, tive do bom e do melhor – exclamou o belo garoto.

– Mas Caim, meu filho. Nós não temos mais galinhas para vender...

– É tudo culpa de Abel, aquele preguiçoso! Não fosse tão feio, ganharia mais dinheiro. Ninguém gosta de flanelinha feio.

– Caim, seu irmão está dando duro para sustentar a família. Quem você acha que comprou os ingressos para você ir ao GP de Mônaco de Fórmula 1?

– Mas é o papel que lhe cabe nessa família! Eu exijo que minhas batatas sejam fritas no óleo trufado com alecrim... e HBO no meu celular... e um tutor para fazer minha lição de casa... Se não tivermos dinheiro para isso, vamos vender Abel como escravo nas minas de carvão!

É neste momento que o pai se levanta, puxa a dádiva divina pelo braço, deita-o no colo e sapeca-lhe nas nádegas cobertas de talco uma sequência de tapas tão longa que a sala fica por alguns minutos envolta em uma nuvem.

Assim que se dissipa a neblina cheirosa, Abel fala pela primeira vez:

– Eu não sou mudo, mas fiquei quieto por muito tempo. Posso não ser bonito e cheiroso, mas sou seu filho também. De quem você acha que vieram estas orelhas de abano? Se eu não puder comer bombom de trufas, que ninguém coma então!

E, daquele dia em diante, bombons de trufa apareciam naquela casa apenas em dias especiais, como quando Caim tirava nota 10 na escola ou a pata botava uma dúzia de ovos. Os irmãos passaram a compartilhar os bombons. Caim ainda tentava ficar com um pedaço maior, mas Abel havia aprendido a defender o seu quinhão.

E nessa história Caim não matou Abel.

No Brasil de hoje, algumas notícias sugerem que os bonitos e perfumados não vão conseguir vender seus irmãos para as minas. Já estamos admitindo que o aumento salarial para o funcionalismo público federal em 2018, que custaria 22 bilhões de reais para o contribuinte, pode ser postergado. A tentativa do Ministério Público de se autopresentear com um aumento de 17% foi justamente repudiada por políticos e pelo brasileiro ordinário que paga impostos ou está desempregado.

Nossos cheirosos e privilegiados precisam descer ao Brasil. Não vamos ter paz em casa enquanto governo paga a alguns poucos salários que são mais de 30, 40, 50 vezes os salários dos muitos. O favoritismo gera distância social e insensibilidade diante do sofrimento de nossos irmãos menos bafejados pela sorte.

Construir um destino comum para todos os brasileiros é um dos maiores desafios de nosso país. Para sairmos unidos do período das vacas magras, vamos ter que aprender a distribuir mais igualitariamente os sacrifícios e privilégios.

 
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