Além das mortes e da destruição, a invasão da Ucrânia pela Rússia, desde seu início há menos de um mês, impactou toda a economia global, resultando em crescimento mais lento e elevação da inflação. Preços mais altos de alimentos e combustíveis de uso doméstico atingirão principalmente os mais pobres.

Como resultado das sanções externas sobre a Rússia – o isolamento de seu banco central e a exclusão de alguns de seus bancos do sistema de pagamentos internacionais SWIFT, assim como a detenção de ativos de oligarcas russos no exterior, as sanções voluntariamente aplicadas por agentes privados externos e a interdição de produtos tecnológicos importados pelo país – seu PIB deve cair pelo menos 15% esse ano. As economias vizinhas de Ucrânia e Rússia estão passando por interrupções no comércio, paralisações em cadeias de suprimentos e quedas nas remessas de emigrantes, além de terem que lidar com um contingente de refugiados da Ucrânia que já passa de 3 milhões.

Os impactos imediatos da guerra alhures estão se dando através de três canais de transmissão. Primeiro, há um efeito sobre as finanças, na medida em que a queda de confiança nos negócios e a maior incerteza dos investidores afetaram negativamente os preços dos ativos, apertando as condições financeiras. Temeu-se que a guerra pudesse até levar à saída de capitais de áreas consideradas sensíveis a subidas de prêmios de risco, como vários países emergentes e em desenvolvimento, ou no mínimo a vendas de seus papéis para pagar investidores em retirada de fundos com exposição à Rússia.

Por outro lado, depois de semanas de apreensão, os índices de volatilidade parecem ter se estabilizado na semana passada, em parte porque dúvidas sobre a direção da política monetária pelo Federal Reserve (Fed) diminuíram ao fim da reunião de seu comitê de política monetária na semana passada. Ajuda o fato de que um eventual calote de parte da dívida externa da Rússia não parece representar fonte de risco sistêmico nas finanças globais.

Segundo, há também um choque de preços de commodities energéticas e de alimentos em todo o mundo, aumentando níveis de inflação e reduzindo o poder de compra das populações, com efeitos sobre a demanda agregada e o crescimento nos países. Afinal, Rússia e Ucrânia são grandes produtores de commodities e as interrupções fizeram com que os preços globais disparassem, especialmente para petróleo e gás natural. Os custos dos alimentos aumentaram, particularmente com o preço atingindo níveis recordes no caso do trigo, para o qual a Ucrânia e a Rússia representam 30% das exportações globais.

As economias dependentes de importações de petróleo verão déficits fiscais e comerciais mais amplos e mais pressão inflacionária, embora alguns exportadores, como os do Oriente Médio e da África, possam se beneficiar de preços mais altos. Aumentos mais acentuados de preços de alimentos e combustíveis podem aumentar o risco de levantes sociais em algumas regiões, da África Subsaariana e América Latina ao Cáucaso e a Ásia Central, enquanto a insegurança alimentar provavelmente aumentará ainda mais em partes da África e do Oriente Médio.

Um terceiro canal de transmissão se dará via nova rodada de restrições nas cadeias de suprimento. A Rússia também é um fornecedor significativo de fertilizantes, paládio, alumínio e outros produtos que podem ser afetados por restrições logísticas provocadas por conflitos militares, sanções e restrições voluntárias ao comércio. O alumínio e o aço produzidos pela Rússia são usados ​​em uma ampla gama de produtos manufaturados, de latas de bebidas a smartphones e carros.

A Ucrânia e a Rússia são fontes substanciais de paládio e platina, e ambas são usadas para fabricar conversores catalíticos para a indústria automobilística. Platina, cobre e níquel são insumos críticos para baterias de veículos elétricos. A Ucrânia também é a fonte de 50% do gás neônio do mundo, usado para lasers empregados na fabricação de chips semicondutores – pode-se supor que a escassez global de chips semicondutores provavelmente não terminará em breve. A Bielorrússia, um aliado próximo da Rússia, é um grande produtor de potássio, um importante insumo de fertilizantes.

Esses impactos da guerra serão diferenciados por países, dependendo se são exportadores ou importadores de energia e alimentos. A Europa sentirá mais que os Estados Unidos, tanto via inflação quanto no arrefecimento da recuperação econômica pós-pandemia.

Em ambos os lados do Atlântico, a guerra na Ucrânia aprofundou o desafio já encarado por seus bancos centrais, na busca de encontrarem caminhos equilibrados entre, de um lado, o aperto das condições financeiras necessário para conter a inflação e, do outro, uma desaceleração do crescimento que não conduza a uma recessão subsequente. Ficaram mais frequentes as comparações entre hoje e o final dos anos 1970, quando o segundo choque de preços de petróleo deu em estagflação.

Os altos preços das commodities acelerarão significativamente a inflação na América Latina e no Caribe, cujas cinco maiores economias – Brasil, México, Chile, Colômbia e Peru – já enfrentam taxas médias anuais de inflação de 8% ou mais. Os exportadores de petróleo, cobre, minério de ferro, milho, trigo e metais da região se beneficiarão de preços mais elevados, mas o impacto de preços de alimentos e combustíveis domésticos será intenso. No Brasil, saldos comerciais e receitas do setor público deverão ser positivamente impactados, mas o desafio de conter a inflação e seus efeitos sobre a parte de baixo da pirâmide de renda aumentarão.

A longo prazo, a guerra pode alterar fundamentalmente a ordem econômica e geopolítica global, com reconfiguração do comércio de energia e de cadeias de suprimentos. As redes de pagamentos internacionais também deverão se fragmentar, assim como os países poderão repensar suas reservas de moeda externa. A geopolítica deve aumentar seu peso como um fator de reformulação dos sistemas de pagamentos internacionais e da oferta e demanda de commodities.



Otaviano Canuto é membro sênior do Policy Center for the New South, membro sênior não-residente do Brookings Institute, professor na Elliott School of International Affairs da George Washington University, professor afiliado na Universidade Politécnica Mohamed VI e principal do Center for Macroeconomics and Development em Washington. Foi vice-presidente e diretor executivo no Banco Mundial, diretor executivo no FMI e vice-presidente no BID. Também foi secretário de assuntos internacionais no Ministério da Fazenda e professor da USP e da Unicamp. 

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Como a guerra na Ucrânia está afetando a economia global

Além das mortes e da destruição, a invasão da Ucrânia pela Rússia, desde seu início há menos de um mês, impactou toda a economia global, resultando em crescimento mais lento e elevação da inflação. Preços mais altos de alimentos e combustíveis de uso doméstico atingirão principalmente os mais pobres.

Como resultado das sanções externas sobre a Rússia – o isolamento de seu banco central e a exclusão de alguns de seus bancos do sistema de pagamentos internacionais SWIFT, assim como a detenção de ativos de oligarcas russos no exterior, as sanções voluntariamente aplicadas por agentes privados externos e a interdição de produtos tecnológicos importados pelo país – seu PIB deve cair pelo menos 15% esse ano. As economias vizinhas de Ucrânia e Rússia estão passando por interrupções no comércio, paralisações em cadeias de suprimentos e quedas nas remessas de emigrantes, além de terem que lidar com um contingente de refugiados da Ucrânia que já passa de 3 milhões.

Os impactos imediatos da guerra alhures estão se dando através de três canais de transmissão. Primeiro, há um efeito sobre as finanças, na medida em que a queda de confiança nos negócios e a maior incerteza dos investidores afetaram negativamente os preços dos ativos, apertando as condições financeiras. Temeu-se que a guerra pudesse até levar à saída de capitais de áreas consideradas sensíveis a subidas de prêmios de risco, como vários países emergentes e em desenvolvimento, ou no mínimo a vendas de seus papéis para pagar investidores em retirada de fundos com exposição à Rússia.

Por outro lado, depois de semanas de apreensão, os índices de volatilidade parecem ter se estabilizado na semana passada, em parte porque dúvidas sobre a direção da política monetária pelo Federal Reserve (Fed) diminuíram ao fim da reunião de seu comitê de política monetária na semana passada. Ajuda o fato de que um eventual calote de parte da dívida externa da Rússia não parece representar fonte de risco sistêmico nas finanças globais.

Segundo, há também um choque de preços de commodities energéticas e de alimentos em todo o mundo, aumentando níveis de inflação e reduzindo o poder de compra das populações, com efeitos sobre a demanda agregada e o crescimento nos países. Afinal, Rússia e Ucrânia são grandes produtores de commodities e as interrupções fizeram com que os preços globais disparassem, especialmente para petróleo e gás natural. Os custos dos alimentos aumentaram, particularmente com o preço atingindo níveis recordes no caso do trigo, para o qual a Ucrânia e a Rússia representam 30% das exportações globais.

As economias dependentes de importações de petróleo verão déficits fiscais e comerciais mais amplos e mais pressão inflacionária, embora alguns exportadores, como os do Oriente Médio e da África, possam se beneficiar de preços mais altos. Aumentos mais acentuados de preços de alimentos e combustíveis podem aumentar o risco de levantes sociais em algumas regiões, da África Subsaariana e América Latina ao Cáucaso e a Ásia Central, enquanto a insegurança alimentar provavelmente aumentará ainda mais em partes da África e do Oriente Médio.

Um terceiro canal de transmissão se dará via nova rodada de restrições nas cadeias de suprimento. A Rússia também é um fornecedor significativo de fertilizantes, paládio, alumínio e outros produtos que podem ser afetados por restrições logísticas provocadas por conflitos militares, sanções e restrições voluntárias ao comércio. O alumínio e o aço produzidos pela Rússia são usados ​​em uma ampla gama de produtos manufaturados, de latas de bebidas a smartphones e carros.

A Ucrânia e a Rússia são fontes substanciais de paládio e platina, e ambas são usadas para fabricar conversores catalíticos para a indústria automobilística. Platina, cobre e níquel são insumos críticos para baterias de veículos elétricos. A Ucrânia também é a fonte de 50% do gás neônio do mundo, usado para lasers empregados na fabricação de chips semicondutores – pode-se supor que a escassez global de chips semicondutores provavelmente não terminará em breve. A Bielorrússia, um aliado próximo da Rússia, é um grande produtor de potássio, um importante insumo de fertilizantes.

Esses impactos da guerra serão diferenciados por países, dependendo se são exportadores ou importadores de energia e alimentos. A Europa sentirá mais que os Estados Unidos, tanto via inflação quanto no arrefecimento da recuperação econômica pós-pandemia.

Em ambos os lados do Atlântico, a guerra na Ucrânia aprofundou o desafio já encarado por seus bancos centrais, na busca de encontrarem caminhos equilibrados entre, de um lado, o aperto das condições financeiras necessário para conter a inflação e, do outro, uma desaceleração do crescimento que não conduza a uma recessão subsequente. Ficaram mais frequentes as comparações entre hoje e o final dos anos 1970, quando o segundo choque de preços de petróleo deu em estagflação.

Os altos preços das commodities acelerarão significativamente a inflação na América Latina e no Caribe, cujas cinco maiores economias – Brasil, México, Chile, Colômbia e Peru – já enfrentam taxas médias anuais de inflação de 8% ou mais. Os exportadores de petróleo, cobre, minério de ferro, milho, trigo e metais da região se beneficiarão de preços mais elevados, mas o impacto de preços de alimentos e combustíveis domésticos será intenso. No Brasil, saldos comerciais e receitas do setor público deverão ser positivamente impactados, mas o desafio de conter a inflação e seus efeitos sobre a parte de baixo da pirâmide de renda aumentarão.

A longo prazo, a guerra pode alterar fundamentalmente a ordem econômica e geopolítica global, com reconfiguração do comércio de energia e de cadeias de suprimentos. As redes de pagamentos internacionais também deverão se fragmentar, assim como os países poderão repensar suas reservas de moeda externa. A geopolítica deve aumentar seu peso como um fator de reformulação dos sistemas de pagamentos internacionais e da oferta e demanda de commodities.



Otaviano Canuto é membro sênior do Policy Center for the New South, membro sênior não-residente do Brookings Institute, professor na Elliott School of International Affairs da George Washington University, professor afiliado na Universidade Politécnica Mohamed VI e principal do Center for Macroeconomics and Development em Washington. Foi vice-presidente e diretor executivo no Banco Mundial, diretor executivo no FMI e vice-presidente no BID. Também foi secretário de assuntos internacionais no Ministério da Fazenda e professor da USP e da Unicamp. 

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