Como economizar com a cobrança da bagagem no avião?

O bar do Manuel serve o melhor prato feito de São Paulo. O arroz é sempre do dia, o feijão tem um caldo grosso e carregado de toucinho e a carne pode ser cortada com uma colher. Quando me dá fome (e preguiça de cozinhar), lá vou eu pedir meu PF com guaraná. Sem erro!

Até que um dia, um técnico do governo, o doutor Sabe-Tudo, compartilhou desta celestial experiência. Munido do melhor conhecimento sobre nutrição, observou ele que o PF era carregado no sal, o que provocava sede nos clientes. Com a melhor das intenções, decidiu que poderia fazer o mundo melhor se o Manuel não explorasse a sede de seus clientes. Pensou, refletiu e achou a solução! Daquele momento em diante, uma portaria da agência reguladora de botecos obrigou os bares a servir o PF com um refrigerante “de grátis”.

No dia seguinte, Manuel aumentou o preço do PF de 10 para 12 reais e passou a oferecer um guaraná grátis com a refeição.

Para mim não faz diferença alguma, pois continuo pedindo meu PF com guaraná e pagando 12 reais no total. Mas para o Zequinha, o contínuo do prédio do lado, o PF ficou mais caro. Explico: como o Zequinha é mais duro que eu, a visita ao bar do Manuel é um sacrifício no orçamento, então seu almoço é sempre regado com água torneiral.

Com o preço mais alto, o Manuel perdeu um cliente. Eu perdi a companhia do Zequinha, ótimo contador de causos no balcão. Para a maioria dos outros clientes, nada mudou. O único ganhador nessa história foi o doutor Sabe-Tudo, que estufou o peito, orgulhoso por ter encontrado uma solução (errada) para um problema (que não existia).

Passam-se vários anos. O doutor Sabe-Tudo se aposenta. Seu substituto, o senhor Modesto Líbero, nota que seu antecessor deixou várias regulações que não fazem muito sentido. Por que raios bares que servem PF devem ser obrigados a oferecer um refrigerante? O Senhor Modesto Líbero viajou mundo afora e experimentou PFs em várias capitais da Europa, a um preço camarada e sem o refrigerante grátis. Na primeira oportunidade, ele então decide baixar uma portaria segundo qual bares não precisam mais oferecer o refrigerante gratuitamente a partir de certa data.

Qual não foi sua surpresa então quando ele aprende, às vésperas da entrada em vigor da portaria, que dois clientes do bar do Manuel recorreram à Justiça para recuperar o refrigerante grátis. Foi uma gritaria nas redes sociais: “O governo neoliberal quer que os bares tenham lucro!” “Não podemos deixar o Manoel nos explorar!”.

E assim termina a minha fábula. Admito, não é tão interessante quanto os causos do Zequinha, mas espero que seja pelo menos educativa e ajude a entendermos um exemplo de regulação da atividade econômica relevante para o Brasil.

Recentemente, em um certo país tropical (abençoado por Deus e bonito por natureza), a agência do governo que regula a aviação civil permitiu que as companhias aéreas cobrassem pelas bagagens. Isto é, o transporte das bagagens não será mais “de grátis” como os refrigerantes da minha fábula. Tal medida beneficia os passageiros, que podem escolher economizar ao viajar com menos bagagem, assim como o Zequinha, que comia o PF sem refrigerante. Esta medida também aumenta a concorrência entre as companhias aéreas, ao permitir que ofereçam produtos diferenciados, assim como na Europa, onde passageiros têm acesso a opções baratas ainda que menos confortáveis e convenientes.

Parece surpreendente para alguns de nós, mas quando o governo sai do caminho, o país pode ir para frente. A experiência europeia mostra que quando o governo saiu da frente e permitiu mais flexibilidade no mercado, as companhias aéreas passaram a oferecer passagens mais baratas e a cobrar por pequenos luxos, como furar a fila no embarque. Quem se beneficia da flexibilidade são exatamente aqueles consumidores mais pobres, que têm agora acesso a passagens mais baratas, ainda que sejam os últimos a se sentar e tenham que trazer um sanduíche para o voo.

Há também outros problemas de ordem mais filosófica. Quando o governo diz que não podemos fazer algo, é sempre uma violação de nossa liberdade. É importante então que o governo use de seu poder para objetivos claramente úteis, como, por exemplo, ordenar às companhias aéreas que mantenham um certo padrão de segurança. Se for para coibir a liberdade, tanto das companhias aéreas quanto do Manuel, é necessário que haja uma claro ganho para sociedade.

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