Em sua nota para a reunião de ministros e presidentes de bancos centrais do G20 na semana passada, o Fundo Monetário Internacional (FMI) destacou uma queda no ritmo da recuperação econômica global. Tendo revisado para baixo (4,4%), em janeiro, sua projeção de crescimento econômico global este ano, o FMI citou indicadores apontando para a continuidade do enfraquecimento da recuperação.

Os principais riscos negativos sugeridos anteriormente se materializaram, afetando as perspectivas de recuperação. Os descompassos entre demanda e disponibilidade de oferta em múltiplos setores, gargalos no transporte de mercadorias e aumentos nos preços de energia e alimentos pressionaram a inflação para cima.

Em várias economias essa elevação de preços se estendeu a todas as categorias de consumo. Enquanto os choques no lado da oferta podiam ser considerados temporários e reversíveis gradualmente ao longo do ano, a percepção passou a ser a de que os descompassos entre oferta e demanda estariam também refletindo excessos de demanda agregada.

Isso já levou autoridades monetárias à emissão de sinais de mudança para políticas menos acomodatícias. Mais gradualmente na zona do euro, enquanto as apostas entre analistas quanto às decisões futuras do Federal Reserve dos Estados Unidos chegam a incluir 6 ou 7 aumentos de suas taxas básicas este ano, talvez incluindo até o início de encolhimento da carteira de ativos em seu balanço (um “aperto quantitativo” sucedendo o fim do “afrouxamento quantitativo”). Uma alta em março – 25 ou 50 pontos básicos – já está sendo tomada como dada.

Em outro trabalho divulgado pelo FMI na semana passada, há uma estimativa de que os choques de oferta foram responsáveis por metade do aumento de preços ao produtor na Europa em 2021, com o restante vinculado aos fortes aumentos de demanda. Nos Estados Unidos, a evidência de superaquecimento da demanda levou, desde o final do ano passado, à substituição da narrativa de inflação “temporária” - por provir de choques reversíveis no lado da oferta - por outra na qual o ponto de discussão é a velocidade e intensidade do aperto nas condições financeiras à frente.

A inflação também se elevou nas economias emergentes e em desenvolvimento, embora na maioria dos casos não por excesso de demanda. Seus estímulos fiscais e monetários como resposta à pandemia não tiveram a escala alcançada nos países avançados e a recuperação das economias emergentes e em desenvolvimento em 2021 ficou bem aquém daquela das avançadas. Fluxos menores de ingresso de capital e, em alguns casos, rebaixamentos de ratings de dívida soberana resultaram em desvalorização cambial e choques de preços domésticos de importações. Por outro lado, compartilharam com as avançadas os impactos da ruptura de cadeias de suprimento e das altas de preços de commodities energéticas e alimentos. Em boa parte do grupo, a elevação de juros domésticos já começou no ano passado, como no Brasil.

A nota do FMI para o G20 também observa que o suporte fiscal contra a crise da pandemia está sendo retirado gradualmente. Até fala em perspectivas de um pacote fiscal nos Estados Unidos menor que o anteriormente vislumbrado.

Decerto que não se poderia esperar que o excepcional ritmo de crescimento global do ano passado, depois da queda em 2020, pudesse ser replicado em 2022. Contudo, a nota observa que boa parte da responsabilidade para a revisão para baixo das projeções em janeiro decorreu de estimativas de crescimento mais lento nos Estados Unidos e na China. No caso desta, listam a continuidade do estresse no mercado de propriedades imobiliárias, o baixo dinamismo no consumo privado e o caráter restritivo da política de “covid-zero”.

Cabe também notar o menor fôlego da recuperação nos emergentes e em desenvolvimento e o aumento da distância entre suas rendas per capita e as de países avançados, como parte das perdas permanentes de PIB com a pandemia. Segundo o relatório “Perspectivas Econômicas Globais” do Banco Mundial de janeiro, em 2023 apenas uma de suas regiões – Europa e Ásia Central – deverá chegar perto do nível de PIB que era projetado antes da pandemia. América Latina e Caribe, Oriente Médio e África do Norte, assim como África Subsaariana, estarão todas no mínimo 4% abaixo do que seria o nível correspondente. O drama deverá ser ainda maior no sul da Ásia, com 8% a menos.

Tanto o Banco Mundial quanto o FMI destacam as grandes disparidades nas taxas de vacinação entre os países como fator importante na desigualdade de recuperações. Também realçam o caráter mais profundo e longo das cicatrizes deixadas pela pandemia nos mercados de trabalho das economias não-avançadas.

Abre-se à frente o desafio para bancos centrais acharem seus caminhos de equilíbrio entre o aperto de condições financeiras e a desaceleração no crescimento, de modo a evitar uma recessão em seguida. Um complicador é a defasagem temporal entre decisões de política monetária e seus efeitos, enquanto uma atenuação de restrições da oferta em combinação com uma desaceleração forte de demanda pode levar a quedas muito abruptas tanto no ritmo de inflação quanto no nível da atividade econômica. Os bancos centrais terão de atravessar o rio pisando em uma pedra de cada vez...

Apesar de algum aperto recente, as condições financeiras globais têm permanecido acomodatícias, enquanto vulnerabilidades continuam elevadas. No caso de emergentes e em desenvolvimento, os altos níveis de endividamento dos setores público e privado aumentam vulnerabilidades e as expõem aos riscos de algum aperto significativo das condições financeiras globais. Mas também nas avançadas não se deve tomar como certo que preços de ativos e a situação financeira corporativa saiam ilesos de ajustes mais drásticos diante da reorientação das políticas monetárias.

Otaviano Canuto é membro sênior do Policy Center for the New South, membro sênior não-residente do Brookings Institute e professor na Elliott School of International Affairs da George Washington University em Washington, D.C.. Foi vice-presidente e diretor executivo no Banco Mundial, diretor executivo no FMI e vice-presidente no BID. Também foi secretário de assuntos internacionais no Ministério da Fazenda e professor da USP e da Unicamp


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Desaceleração e inflação na economia global

Em sua nota para a reunião de ministros e presidentes de bancos centrais do G20 na semana passada, o Fundo Monetário Internacional (FMI) destacou uma queda no ritmo da recuperação econômica global. Tendo revisado para baixo (4,4%), em janeiro, sua projeção de crescimento econômico global este ano, o FMI citou indicadores apontando para a continuidade do enfraquecimento da recuperação.

Os principais riscos negativos sugeridos anteriormente se materializaram, afetando as perspectivas de recuperação. Os descompassos entre demanda e disponibilidade de oferta em múltiplos setores, gargalos no transporte de mercadorias e aumentos nos preços de energia e alimentos pressionaram a inflação para cima.

Em várias economias essa elevação de preços se estendeu a todas as categorias de consumo. Enquanto os choques no lado da oferta podiam ser considerados temporários e reversíveis gradualmente ao longo do ano, a percepção passou a ser a de que os descompassos entre oferta e demanda estariam também refletindo excessos de demanda agregada.

Isso já levou autoridades monetárias à emissão de sinais de mudança para políticas menos acomodatícias. Mais gradualmente na zona do euro, enquanto as apostas entre analistas quanto às decisões futuras do Federal Reserve dos Estados Unidos chegam a incluir 6 ou 7 aumentos de suas taxas básicas este ano, talvez incluindo até o início de encolhimento da carteira de ativos em seu balanço (um “aperto quantitativo” sucedendo o fim do “afrouxamento quantitativo”). Uma alta em março – 25 ou 50 pontos básicos – já está sendo tomada como dada.

Em outro trabalho divulgado pelo FMI na semana passada, há uma estimativa de que os choques de oferta foram responsáveis por metade do aumento de preços ao produtor na Europa em 2021, com o restante vinculado aos fortes aumentos de demanda. Nos Estados Unidos, a evidência de superaquecimento da demanda levou, desde o final do ano passado, à substituição da narrativa de inflação “temporária” - por provir de choques reversíveis no lado da oferta - por outra na qual o ponto de discussão é a velocidade e intensidade do aperto nas condições financeiras à frente.

A inflação também se elevou nas economias emergentes e em desenvolvimento, embora na maioria dos casos não por excesso de demanda. Seus estímulos fiscais e monetários como resposta à pandemia não tiveram a escala alcançada nos países avançados e a recuperação das economias emergentes e em desenvolvimento em 2021 ficou bem aquém daquela das avançadas. Fluxos menores de ingresso de capital e, em alguns casos, rebaixamentos de ratings de dívida soberana resultaram em desvalorização cambial e choques de preços domésticos de importações. Por outro lado, compartilharam com as avançadas os impactos da ruptura de cadeias de suprimento e das altas de preços de commodities energéticas e alimentos. Em boa parte do grupo, a elevação de juros domésticos já começou no ano passado, como no Brasil.

A nota do FMI para o G20 também observa que o suporte fiscal contra a crise da pandemia está sendo retirado gradualmente. Até fala em perspectivas de um pacote fiscal nos Estados Unidos menor que o anteriormente vislumbrado.

Decerto que não se poderia esperar que o excepcional ritmo de crescimento global do ano passado, depois da queda em 2020, pudesse ser replicado em 2022. Contudo, a nota observa que boa parte da responsabilidade para a revisão para baixo das projeções em janeiro decorreu de estimativas de crescimento mais lento nos Estados Unidos e na China. No caso desta, listam a continuidade do estresse no mercado de propriedades imobiliárias, o baixo dinamismo no consumo privado e o caráter restritivo da política de “covid-zero”.

Cabe também notar o menor fôlego da recuperação nos emergentes e em desenvolvimento e o aumento da distância entre suas rendas per capita e as de países avançados, como parte das perdas permanentes de PIB com a pandemia. Segundo o relatório “Perspectivas Econômicas Globais” do Banco Mundial de janeiro, em 2023 apenas uma de suas regiões – Europa e Ásia Central – deverá chegar perto do nível de PIB que era projetado antes da pandemia. América Latina e Caribe, Oriente Médio e África do Norte, assim como África Subsaariana, estarão todas no mínimo 4% abaixo do que seria o nível correspondente. O drama deverá ser ainda maior no sul da Ásia, com 8% a menos.

Tanto o Banco Mundial quanto o FMI destacam as grandes disparidades nas taxas de vacinação entre os países como fator importante na desigualdade de recuperações. Também realçam o caráter mais profundo e longo das cicatrizes deixadas pela pandemia nos mercados de trabalho das economias não-avançadas.

Abre-se à frente o desafio para bancos centrais acharem seus caminhos de equilíbrio entre o aperto de condições financeiras e a desaceleração no crescimento, de modo a evitar uma recessão em seguida. Um complicador é a defasagem temporal entre decisões de política monetária e seus efeitos, enquanto uma atenuação de restrições da oferta em combinação com uma desaceleração forte de demanda pode levar a quedas muito abruptas tanto no ritmo de inflação quanto no nível da atividade econômica. Os bancos centrais terão de atravessar o rio pisando em uma pedra de cada vez...

Apesar de algum aperto recente, as condições financeiras globais têm permanecido acomodatícias, enquanto vulnerabilidades continuam elevadas. No caso de emergentes e em desenvolvimento, os altos níveis de endividamento dos setores público e privado aumentam vulnerabilidades e as expõem aos riscos de algum aperto significativo das condições financeiras globais. Mas também nas avançadas não se deve tomar como certo que preços de ativos e a situação financeira corporativa saiam ilesos de ajustes mais drásticos diante da reorientação das políticas monetárias.

Otaviano Canuto é membro sênior do Policy Center for the New South, membro sênior não-residente do Brookings Institute e professor na Elliott School of International Affairs da George Washington University em Washington, D.C.. Foi vice-presidente e diretor executivo no Banco Mundial, diretor executivo no FMI e vice-presidente no BID. Também foi secretário de assuntos internacionais no Ministério da Fazenda e professor da USP e da Unicamp


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