O acordo comercial

Não é todo dia que temos boas notícias para comemorar, então pode abrir o champanhe: após vinte anos de negociação, a União Europeia e o Mercosul fecharam um acordo de livre-comércio entre os blocos! Nós, economistas, sempre preferimos acordos multilaterais, que envolvam um número elevado de países via Organização Mundial do Comércio, mas dada a dificuldade política nessa área, o acordo da semana passada é muito bem-vindo, pois engloba mercados bastante grandes. O acordo, na verdade, ainda não está valendo. Ele precisa da aprovação do Parlamento Europeu e dos parlamentos dos países-membros. Uma vez ratificado, ele funciona assim: no período de dez anos, os países do bloco europeu se comprometem a zerar a tarifa de importação de 92% dos produtos importados do Mercosul, enquanto nós, do lado de cá do Atlântico,  precisaremos zerar as tarifas de importação de 72% dos produtos que importamos da Europa. Na agricultura, os europeus se comprometem a zerar tarifas de 82% dos produtos que exportamos para lá (e de 100% dos nossos bens industrializados!), enquanto os membros do Mercosul reduzirão a zero as tarifas de 67% de bens agrícolas. Em resumo, não é pouca coisa. O impulso ao comércio em ambas direções será de monta. E note que os efeitos já se farão sentir bem antes de uma década, não só devido à redução ano a ano das tarifas, mas também pelo efeito sobre expectativas: os investimentos necessários para atender a um mercado exportador maior começam daqui a pouco. A competição em ambos os blocos será acirrada, o que no final das contas vai beneficiar você, o consumidor, que terá produtos melhores e mais baratos à disposição. Os setores mais protegidos da economia vão sofrer, claro, mas têm alguns bons anos para se redesenhar, reduzir custos, se adaptar à nova realidade. Caso daqui a dez anos alguns sucumbam, é porque de fato não deveriam mais existir. E não nos tachem de impiedosos: precisamos proteger as pessoas (seguro-desemprego, retreinamento), não certas indústrias ou corporações. Por fim, ouvimos amiúde a seguinte preocupação: "Considerando as diferenças de produtividade, vamos terminar importando muito dos europeus, mas não seremos capazes de exportar mais, pois nossas empresas não têm como competir". Caro leitor, sempre que escutar essa frase, pergunte-se: como é possível eles nos venderem tanto e nós não vendermos quase nada para eles? Com que dinheiro, se não o advindo da exportação de nossos bens e serviços, poderíamos pagar por esse rio caudaloso de importações? Verdade que por algum tempo se pode acumular dívida externa em dólares e em euros para cobrir importações superiores às exportações. Mas isso é temporário. Pense bem: quem empresta esse dinheiro o faz na expectativa de recebê-lo de volta no futuro. E em dólares e euros, pois pesos e reais eles não querem. E de onde mesmo virão esses dólares e euros, se nossos bancos centrais não os emitem? Bingo: das exportações. Acordos de livre-comércio não elevam os déficits externos; eles elevam o volume tanto das importações como das exportações.

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