O Jogo do Boicote: quanto custa ser intolerante?

O Jogo do Boicote: quanto custa ser intolerante?

Lá nos idos da década de 1990, espalhou-se o boato de que o então ministro da Fazenda, Pedro Malan, faria uma palestra numa universidade de São Paulo. Não ficou claro para os alunos se, de fato, havia um seminário programado. Mas os rumores já foram suficientes para atrair jovens de esquerda furiosos de todas as partes do campus (e até de outras cidades).

Hoje a história se repete também no mundo desenvolvido. Universitários pressionam a direção de suas escolas para que cancelem eventos com defensores de ideias que ofendem sua visão de mundo. Aqui no Brasil, grupos raivosos boicotam manifestações artísticas que consideram ofensivas, como no caso da exposição do Queermuseum em Porto Alegre.

A intolerância a ideias e manifestações artísticas inclui gente de diversos lados do espectro ideológico. O problema é que esse jogo de boicotes pode trazer prejuízos à sociedade, na forma de uma menor diversidade de opiniões, ideias, manifestações artísticas etc. Se cada grupo tenta boicotar as ideias do outro, podemos acabar em um mundo em que as pessoas são expostas a menos ideias.

Um pouco de Teoria dos Jogos ajuda a ilustrar o argumento. Consideraremos uma situação bem simplificada, apenas para facilitar a explicação. Pense que os jogadores são dois grupos (com opiniões opostas), M e N, que gostam de determinado tipo de arte, porém se sentem ofendidos por outros tipos de manifestações. Especificamente, o grupo M gosta de determinado tipo de arte que o grupo N odeia, e vice-versa.

Suponha que "a" seja o valor da arte que cada grupo apoia, e "b" seja a perda associada à arte considerada ofensiva. Um grupo pode boicotar a arte do outro a um custo "c". Para simplificar, suponha que, quando o movimento ocorre, a manifestação artística boicotada é barrada; e que há simetria perfeita entre os dois grupos jogando.

Qual o ganho de cada grupo se ninguém boicotar? O ganho da existência de sua arte menos a perda associada ao outro tipo de manifestação artística, isto é, a - b. Se um grupo realizar o boicote, enquanto o outro não faz nada, ele bloqueia a arte que considera ofensiva, eliminando a perda "b'. Tem, porém, que pagar o custo "c" do boicote. Assim, nessa situação, o ganho líquido é a - c.

Compensa para um grupo, unilateralmente, boicotar a arte do oponente nesse jogo? Sim, se a - c (ganho líquido do boicote) for maior do que a - b (ganho líquido de não boicotar), ou seja, se "c" for menor que "b". Em outras palavras, se o custo do boicote for pequeno comparado à perda associada à existência da arte considerada ofensiva.

Pense agora nos dois grupos agindo da mesma forma. É aqui que entra a Teoria dos Jogos, ao avaliar a interação estratégica entre os dois grupos, e que situação pode emergir daí (o equilíbrio do jogo). Suponha que, para cada um deles, compensa bloquear a arte que lhe ofende (isto é, c < b). O resultado dessa interação é: os dois tipos de manifestação são eliminados, sobrando só o custo do boicote (-c).

O certo é que esse movimento conjunto acaba diminuindo a diversidade cultural e de ideias na sociedade. Quem perde? Principalmente as pessoas que não se sentem ofendidas pela existência de outras ideias —por exemplo, indivíduos que gostam de determinado tipo de arte, mas não se ofendem com a existência de outras manifestações. A depender dos parâmetros, os próprios grupos engajados nos boicotes terminam em uma situação pior do que se ninguém boicotasse (caso ­"a" seja alto o suficiente).

O que estaria por trás desse equilíbrio? Como dissemos, ele pode se sustentar se o custo do boicote (c) for suficientemente baixo. O advento das redes sociais provavelmente contribui para isso, ao facilitar a mobilização de indivíduos com interesses comuns.

O fato de organizadores e patrocinadores de exposições cederem a qualquer pressão de grupos específicos também ajuda a diminuir o valor "c". O mesmo vale para dirigentes de universidades que cancelam palestras diante de pressões de alguns estudantes. Significa que o boicote não precisa ser muito forte para barrar uma manifestação considerada ofensiva.

A defesa ampla da liberdade de expressão por parte da sociedade certamente ajudaria a aumentar esses custos do boicote, potencialmente evitando que a situação acima descrita seja um equilíbrio –em particular se a Justiça rechaçasse qualquer pedido de proibição a manifestações artísticas, culturais, e de ideias em geral.

Infelizmente, isso não parece estar ocorrendo: recentemente, em Jundiaí (SP), a Justiça barrou espetáculo "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu", em que uma transexual interpreta Jesus Cristo. Tomara que seja um caso isolado (em Porto Alegre um juiz se recusou a proibir a mesma peça de teatro). Tememos que cada vez mais a liberdade de expressão fique em segundo plano, para que alguns grupos barulhentos não se sintam ofendidos.
*


Agradecemos Sergio Almeida, professor de Economia da FEA/USP, pela discussão.

Texto publicado originalmente em nossa coluna na Folha de S.Paulo.
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