Alguns indicadores permitem prever o retorno das ações. Talvez o mais relevante seja o que mede a tendência passada recente, também conhecida por momentum. A capacidade preditiva desse simples indicador é surpreendente. Uma estratégia que consiste em comprar ações de empresas que mais subiram nos últimos doze meses e vender as que mais caíram nesse mesmo período rendeu algo em torno de 14% ao ano nos últimos dez anos no Brasil. Mesmo se descontarmos os custos de operação, o retorno médio dessa estratégia ainda impressiona.


Dada a sua lucratividade (e simplicidade), a questão que surge é: como é possível que a estratégia ainda dê resultados? São duas as principais hipóteses. A primeira é que esse indicador capta a percepção de risco dos agentes sobre essas empresas. Nesse caso, o retorno obtido seria uma remuneração justa pelo risco incorrido ao comprar esses papéis. A segunda hipótese é que os preços são ineficientes, e os arbitradores restritos. Aqui, a premissa é a de que os investidores reagem incorretamente aos sinais e, na ausência dos arbitradores, os preços terminariam por refletir esse comportamento irracional.

Mas qual das duas explicações é a correta? Ainda não se sabe. A dificuldade está em descartar a primeira hipótese: precisamos especificar também o modelo de risco que os investidores têm em mente (algo que não é possível), e isso impede uma conclusão definitiva.

Na edição de dezembro do prestigioso Journal of Finance, Tobias Moskowitz traz uma solução criativa para contornar esse problema. No artigo “Asset Pricing and Sports Betting”, ele avalia se há momentum nos preços de apostas esportivas e se ele está relacionado a um comportamento irracional dos apostadores.

A sacada aqui foi que, ao analisar o mercado de apostas esportivas, não precisamos especificar o modelo de risco. Os resultados das apostas são puramente aleatórios e não correlacionados com as variáveis que importariam em um modelo de risco (como, por exemplo, a probabilidade de uma grande recessão econômica). Dessa forma, se encontramos que há momentum nas apostas esportivas, sua origem deve ser comportamental.

De fato, isso é o que o autor encontra. As equipes de basquete americano em tendência positiva (que ganharam suas últimas partidas), costumam observar um encarecimento de suas apostas. Esse aumento nos preços, no entanto, não é justificado pelo resultado do jogo. Isto é, os apostadores exageram ao extrapolar os resultados recentes das equipes esportivas. Esse fenômeno não deve surpreender os brasileiros que acompanham futebol e que viram os resultados esportivos do último fim de semana, por exemplo.

Apesar da evidência apresentada por Moskowitz ser favorável à hipótese comportamental do momentum, o debate está longe de concluído. As magnitudes dos efeitos encontrados são modestas se comparadas às encontradas no mercado de ações. Além disso, os agentes que apostam em jogos não são exatamente os mesmos que trabalham no mercado financeiro. As evidências são interessantes e contribuem para o debate, mas devemos considerá-las sem exageros. 

COLUNA PUBLICADA NA FOLHA DE SÃO PAULO

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O que as apostas esportivas podem nos ensinar sobre investimentos?

Alguns indicadores permitem prever o retorno das ações. Talvez o mais relevante seja o que mede a tendência passada recente, também conhecida por momentum. A capacidade preditiva desse simples indicador é surpreendente. Uma estratégia que consiste em comprar ações de empresas que mais subiram nos últimos doze meses e vender as que mais caíram nesse mesmo período rendeu algo em torno de 14% ao ano nos últimos dez anos no Brasil. Mesmo se descontarmos os custos de operação, o retorno médio dessa estratégia ainda impressiona.


Dada a sua lucratividade (e simplicidade), a questão que surge é: como é possível que a estratégia ainda dê resultados? São duas as principais hipóteses. A primeira é que esse indicador capta a percepção de risco dos agentes sobre essas empresas. Nesse caso, o retorno obtido seria uma remuneração justa pelo risco incorrido ao comprar esses papéis. A segunda hipótese é que os preços são ineficientes, e os arbitradores restritos. Aqui, a premissa é a de que os investidores reagem incorretamente aos sinais e, na ausência dos arbitradores, os preços terminariam por refletir esse comportamento irracional.

Mas qual das duas explicações é a correta? Ainda não se sabe. A dificuldade está em descartar a primeira hipótese: precisamos especificar também o modelo de risco que os investidores têm em mente (algo que não é possível), e isso impede uma conclusão definitiva.

Na edição de dezembro do prestigioso Journal of Finance, Tobias Moskowitz traz uma solução criativa para contornar esse problema. No artigo “Asset Pricing and Sports Betting”, ele avalia se há momentum nos preços de apostas esportivas e se ele está relacionado a um comportamento irracional dos apostadores.

A sacada aqui foi que, ao analisar o mercado de apostas esportivas, não precisamos especificar o modelo de risco. Os resultados das apostas são puramente aleatórios e não correlacionados com as variáveis que importariam em um modelo de risco (como, por exemplo, a probabilidade de uma grande recessão econômica). Dessa forma, se encontramos que há momentum nas apostas esportivas, sua origem deve ser comportamental.

De fato, isso é o que o autor encontra. As equipes de basquete americano em tendência positiva (que ganharam suas últimas partidas), costumam observar um encarecimento de suas apostas. Esse aumento nos preços, no entanto, não é justificado pelo resultado do jogo. Isto é, os apostadores exageram ao extrapolar os resultados recentes das equipes esportivas. Esse fenômeno não deve surpreender os brasileiros que acompanham futebol e que viram os resultados esportivos do último fim de semana, por exemplo.

Apesar da evidência apresentada por Moskowitz ser favorável à hipótese comportamental do momentum, o debate está longe de concluído. As magnitudes dos efeitos encontrados são modestas se comparadas às encontradas no mercado de ações. Além disso, os agentes que apostam em jogos não são exatamente os mesmos que trabalham no mercado financeiro. As evidências são interessantes e contribuem para o debate, mas devemos considerá-las sem exageros. 

COLUNA PUBLICADA NA FOLHA DE SÃO PAULO

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