Para que servem faixas de pedestres?

Em muitos lugares do Brasil, para nada. Motoristas não param na faixa para que pedestres cruzem. E muitos destes atravessam fora da faixa. Um pouquinho de economia nos ajuda a entender por quê.

Economistas utilizam a noção de equilíbrio para estudar como as pessoas se comportam, e que tipo de resultado emerge da interação entre indivíduos. Mais especificamente, a ideia de equilíbrio de Nash descreve uma situação em que não há incentivo para que ninguém, individualmente, mude seu comportamento.

Considere o arranjo que encontramos com frequência em nossas ruas, no qual motoristas não dão vez a pessoas que tentam atravessar na faixa de pedestres. Há pouco incentivo para que um motorista, individualmente, tome uma atitude diferente. Afinal, os outros motoristas não esperam que alguém faça isso. Muito provavelmente vão buzinar ou lançar insultos ao condutor que parou para o pedestre passar. Há inclusive risco de acidentes, na medida em que apressadinhos tentam desviar do carro que parou na frente da faixa.

Ou seja, o custo de um motorista parar na faixa, dado que quase ninguém faz isso, é alto. O resultado é que quase ninguém dá vez aos pedestres. E estes reagem também. Afinal, tanto faz atravessar a rua na faixa ou fora dela. Por que se deslocar até a faixa, se não quase há vantagem?

Note que nem os próprios pedestres esperam que um carro pare para eles. Quando isso acontece é comum agradecerem efusivamente, como se fosse a maior gentileza do mundo, e atravessarem a rua correndo, para que o motorista não precise esperar tanto. Na verdade, o condutor não está fazendo mais do que sua obrigação, já que a lei de trânsito indica que, na faixa, a passagem deve ser dada ao pedestre.

Motoristas e pedestres se comportam como se a preferência no trânsito fosse do veículo – quando a lei diz justamente o contrário!

Em outras palavras, temos um equilíbrio em que (quase) nenhum motorista dá a vez a pedestres. E a maioria dos pedestres atravessa fora da faixa. A faixa não serve para nada (ou quase nada).

Quebrar esse equilíbrio é difícil: individualmente, motoristas e pedestres têm pouco incentivo a mudar de comportamento. Precisaríamos que o governo entrasse em jogo para coordenar as pessoas na direção de uma situação em que dar a vez para o pedestre é a regra, não a exceção.

A aplicação de multas a motoristas que não param na faixa, ou até a pedestres que atravessam fora dela, é uma opção. Campanhas de conscientização também podem ajudar. No campus da universidade em que trabalho, o órgão de trânsito da cidade contratou pessoas para ficarem perto das faixas pessoas, munidas de bandeiras. Toda vez que algum pedestre deseja atravessar, a bandeira é posicionada sobre a via, na frente dos carros. Isso dá visibilidade à faixa – afinal, como ela não serve para muita coisa, é muito provável que muitos motoristas nem as notem.

Essas iniciativas, porém, têm um alcance bem local. Aplicá-las em larga escala é custoso. Mesmo no caso das multas, seria necessário ter muitos fiscais por aí para que tenhamos algum efeito relevante. A fim de alcançar uma mudança maior, precisaríamos de uma mudança cultural – o que é mais difícil e tende a levar bastante tempo. 

COLUNA PUBLICADA NA FOLHA DE SÃO PAULO


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