PIBão ou PIBinho?

Essa história de prever o crescimento da economia para o ano corrente (e futuros!) tem uma boa pitada de bola de cristal. Vai ser 4,5% ou 5,5%? Francamente, ninguém sabe. Os otimistas que acertam num ano erram no outro. E vice-versa. Em 2020, falava-se em queda de 8% do PIB, mas a contração econômica foi de 4,5%. Para 2021, previa-se até há pouco algo como 3,5%, mas os dados mensais foram vindo mais fortes e o consenso hoje é de 5% ou mais. Ao que se pode calcular a partir das variáveis econômicas disponíveis e de outros indicadores de expectativas, 5% de fato parece uma boa aposta para o PIB de 2021, mas não deixa de ser um palpite. Contudo, como sempre enfatizamos nesta coluna e em outras mídias, muito mais importante que saber se serão 4% ou 6% em 2021 é entender por que a média do crescimento per capita dos últimos quarenta anos se encontra na casa do mísero 1%. De todo modo, este é um artigo de natureza conjuntural e versará sobre o presente.

Antes de mais nada, crescer 5% este ano não configura uma arrancada da economia, como exaltam alguns. O PIB brasileiro simplesmente retornará ao nível pré-covid, e a medida mais importante para o bem-estar social, a taxa de desemprego, seguirá muito elevada por um tempo. Obviamente, isso não significa que 5% seja um número ruim. O país ao menos está acompanhando mais ou menos a tendência mundial. Em 2020, a contração na América Latina foi de 7%, e nos emergentes como um todo, de 2,5%. Ou seja, ficamos exatamente na média. Para 2021, a expectativa de expansão para esses dois grupos de países é de, respectivamente, 4,5% e 6,5%. Mais uma vez, o Brasil aparece no meio do caminho com seus 5% e mais um pouco. 

A que se deve tal desempenho? Os fatores são inúmeros, e nem todos claramente identificáveis, mas na lista deveriam constar: (i) a política monetária fortemente expansionista do Banco Central no enfrentamento da crise; (ii) a influência da PEC do Teto de 2016 sobre a trajetória dos gastos públicos, que reduziu a percepção de um evento fiscal adverso de grandes proporções no curto prazo; (iii) o fato de a mobilidade das pessoas no Brasil ter se elevado rapidamente já desde o início do inverno passado (com a consequência adversa, claro está, de um agravamento da crise de saúde por causa desse último fator); e (iv) a resiliência do crescimento econômico de nosso principal parceiro comercial, a China.

O quadro, portanto, não é ruim. Mas há sempre o reverso da moeda. A política monetária – no nosso entender conduzida de modo correto, diga-se – deu uma despertada na inflação, que anda quente em 2021. Isso significa que o impulso monetário logo chegará ao fim, com o BC provavelmente continuando a elevar a taxa Selic para forçar a inflação a embicar na direção dos 4%.  E como a inflação, a pandemia também segue quente, o que prejudica o planejamento das pessoas e das empresas, comprometendo o crescimento. Aqui cabe uma observação importante: é possível manter um grau razoável de mobilidade (e, portanto, proteger a economia) e ao mesmo tempo controlar o ritmo de expansão do vírus e reduzir as internações/casos graves. Isso se faz via vacinação (vide Israel, Estados Unidos, Inglaterra) e com a imposição estrita de protocolos comportamentais em ambientes públicos, como nos ensinam os países do leste asiático (higiene pessoal, uso de máscaras, proibição de eventos como carreatas de motocicleta, shows em lugares fechados, bares, etc). 

Em resumo, para 2021, nem bão nem binho, mas a famigerada reversão à média. Mais importante é que, sem abertura econômica, sem reforma tributária (de verdade), administrativa, educacional e política e sem o banimento do populismo econômico por parte das esquerdas e direitas nacionais, o PIB por habitante em 2043 seguirá miúdo. 

COLUNA PUBLICADA NA FOLHA DE SÃO PAULO

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