Por que o BNDES usa o seu dinheiro como quer?

Um debate polêmico se instalou no Brasil sobre o papel, os benefícios e os custos das intervenções do BNDES, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico.

BNDES

Evitarei a polêmica, como sempre. Tampouco irei “fulanizar” a discussão, meus caros. Nosso guia é a teoria econômica. E nada mais.

Mas por que raios existe o BNDES? O que ele faz, afinal?

Ora, pois, ele capta dinheiro numa ponta e empresta na outra. Simplesmente. Aliás, todos os bancos fazem algo similar. Mas há uma pequena diferença no caso do BNDES. Na verdade, uma diferença não é tão pequena assim.

Bancos privados precisam se financiar com depósitos de pessoas e emissões de dívida própria ou de ações – que a gente decide se quer ou não comprar. E esses bancos não podem forçar nenhum de nós a colocar nosso dinheiro lá para financiar seus empréstimos.

Já o BNDES... O BNDES não funciona assim.

O BNDES se financia com recursos do FAT, o Fundo de Amparo ao Trabalhador. E ninguém pergunta ao trabalhador se ele quer participar ou não desse fundo. Além disso, usa dinheiro emprestado do governo federal.

Do governo federal?

Meus caros, sejamos francos? O dinheiro do governo federal não é bem do governo federal, né? Mas do contribuinte. É meu, é seu, é de todos nós. E não somos questionados se queremos ou não o nosso dinheiro, pago em vários impostos, usados pelo BNDES.

Nenhuma decisão do BNDES, por sinal, passa por consulta aos parlamentares, eleitos por cada um de nós, no Congresso. Ou seja, o BNDES pega nosso dinheiro e empresta para quem quiser. Como bem entender.

Veja a diferença entre esse modo de operar e os gastos feitos com saúde, por exemplo. Esses últimos gastos, obviamente, também vêm dos impostos, pagos com nosso trabalho. Mas esse investimento precisa ser aprovado pelos congressistas – bem ou mal, nossos representantes, escolhidos por nós, eleitores.

O BNDES, meus caros,  age com boas intenções? Procurando melhorar o bem-estar da sociedade?

É difícil julgar.

Mas, já julgando, depois de ler o livro Capitalismo de laços, do pesquisador Sergio Lazzarini, sobre empréstimos públicos e conexões políticas, pode ser que seu ceticismo aumente.

Mas, ok. Vamos tomar como hipótese padrão as boas intenções. (Risos.)

Por que precisamos do BNDES para dar crédito para empresários investirem?

Resposta padrão, senhoras e senhores: porque o mercado privado não faz empréstimos de longo prazo com taxas razoáveis. Muito bem, deve ser por isso mesmo…

Será? Você já parou para pensar na razão de o mercado privado não fazer isso?

O BNDES não repassa nossa grana a taxas normais de mercado. Cobra de seus tomadores de dinheiro juros muito, mas muito, muito mesmo, mais baixos. Isso, claro, desencoraja os bancos privados a concorrer nesse segmento. Logo, um dos fatores que inibe o desenvolvimento do crédito privado de longo prazo é a própria existência do BNDES nos atuais moldes. E não o contrário.

Pois é. Trata-se da velha história do rabo correndo atrás do cachorro.

Já fiz várias perguntas aqui, mas não consigo parar: como o BNDES é capaz de emprestar a taxas muito baixas, que não são rentáveis suficientes para o setor privado?

A resposta não é: “O BNDES é muito mais eficiente que um banco privado, tem capacidade de fazer empréstimos mais longos e mais baratos”.

Eis a resposta correta: o BNDES não precisa captar recursos pagando as taxas médias do mercado para realizar suas operações. Se precisasse fazer isso, minha gente, já teria quebrado.

O governo bota dinheiro no BNDES com o recolhimento dos impostos que você paga – lembra-se disso? E também com a poupança forçada que devolve aos pobres trabalhadores do FAT uma remuneração mísera.

Assim fica fácil, não é? Beleza.

Mas e os resultados? Bem, o BNDES, com essa política aí, de tirar dos pobres para emprestar aos ricos, conseguiu dar grande impulso ao desenvolvimento econômico do Brasil?

Não quero parecer irônico, longe de mim, nem me estender demais. No entanto, dado que temos crescido bem menos que países semelhantes a nós, a resposta parece ser um retumbante, sonoro e exagerado NÃO. E o investimento no Brasil está caindo, caindo, caindo…

Peço desculpas, mas preciso falar ainda mais um pouco.

Só piora se pararmos para pensar na questão: o BNDES tem na cabeça essa coisa dos anos 1950, de querer criar campeões nacionais, empresas capazes de competir no mercado mundial feito super-heróis em defesa do Brasil… Primeiro que super-herói mesmo não precisa de doping. E, depois, que ideia de jerico! Ajudar uma empresa grande a ficar ainda maior para sair comprando concorrentes? E com dinheiro que sai do nosso bolso?

Meus caros leitores, isso não soa nada interessante.

Quando esses campeões se tornam monopolistas, com a ajuda do BNDES, os preços dos bens e serviços vendidos por eles sobem. Ou não? E pesam no bolso de quem? Ora, justamente: pesam no bolso do consumidor. Melhor dizendo, no seu bolso.

Portanto, o já surrado cidadão apanha outras duas vezes quando o BNDES persegue sua política de criar campeões nacionais.

Meus caros, o Brasil precisa de muitas coisas que dependem do governo: mais e melhores gastos com saúde e educação; melhor redistribuição da renda; melhor ambiente de negócios; mais integração comercial com o mundo. E o Brasil, definitivamente, NÃO, não precisa do BNDES. Nem para lidar com crises.

Em 2009, é verdade, devo fazer aqui justiça, o BNDES serviu para evitar o aprofundamento do colapso financeiro no Brasil. Mas a grana salvadora da pátria poderia muito bem ter sido fornecida pelo próprio Tesouro, diretamente.

Já falei demais, dói-me o fígado.

Mas, para finalizar, só mais uma perguntinha: vamos fechar gradualmente esse Robin Hood às avessas?

BNDES GIF

Oremos, caríssimos. Vou ali tomar um Epocler.

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