Por que o "pânico" parou a bolsa da China?

Na semana passada a Bolsa de Valores da China deu um susto em todo mundo. Pela segunda vez neste ano, e pelo segundo dia consecutivo, foi acionado o tal do “circuit breaker”. O mecanismo serve para encerrar as operações quando ocorre uma queda forte como a de 7% em um dia.

Note: isso já ocorreu duas vezes em pouco mais de 10 dias dentro de um ano.

A ideia do “circuit breaker” é evitar que um pânico generalizado entre os investidores cause um derretimento da bolsa. Espera-se que todo mundo se acalme e volte a transacionar no dia seguinte.

Mas esses eventos acabaram levantando sérias preocupações sobre a saúde da economia chinesa.

A China vem crescendo muito nos últimos anos. E, provavelmente, crescerá mais rápido que a economia mundial no futuro. Por que então tamanha preocupação, a ponto de beirar o pânico entre os participantes da bolsa em Pequim?

Antes de tudo, temos que elucidar como funciona uma bolsa de valores e o mercado de ações.

O que é uma ação?

Nada mais que um pedacinho de uma empresa. Ela promete a quem a segura uma fração dos lucros dessa firma ao longo do tempo. Caso haja uma expectativa de que a empresa terá mais lucro no futuro, o preço da ação já sobe hoje mesmo.

Por quê?

Esse papel se torna mais atraente para os investidores. Acredita-se que ele trará mais dinheiro lá na frente, afinal. Consequentemente, mais gente quer comprar as ações da empresa hoje e isso acaba empurrando seu preço para cima – leia sobre mecanismo de oferta e procura e como os preços se formam de acordo com o modelo.

Ou seja, a empresa pode até estar dando prejuízo hoje. Mas, caso surjam notícias de boa perspectiva no futuro, as ações estarão em alta.

Da mesma forma, tudo pode estar às mil maravilhas hoje; mas se as expectativas futuras de lucro da empresa pioram, suas ações embicarão para baixo.

Pouco importa o que aconteceu no passado, portanto. É mais relevante o que se espera que ocorrerá no futuro com essa companhia.

O que é uma bolsa de valores?

É o local em que se negociam as ações de empresas em um dado país. Assim, perspectivas pessimistas sobre o desenvolvimento da economia tendem a significar menos lucro lá na frente, o que derruba a cotação das ações da maioria das companhias listadas na bolsa. E isso acaba puxando para baixo a bolsa inteira.

 

Sendo assim, não importa para o mercado de ações como a economia chinesa está hoje, mas, sim, como se espera que ela esteja no futuro. E são as preocupações com relação ao futuro da China que estão por trás da queda na Bolsa.

A China vem crescendo a um ritmo impressionante nas últimas décadas, apesar de ainda ser um país de renda per capita bem baixa. Tem uma elevada taxa de investimento – por exemplo, a China investe cerca de 50% do PIB, contra menos de 20% no caso brasileiro.

Além disso, observamos forte processo de mudança estrutural, com a população se mudando do campo para a cidade.

Esses fatores explicam em parte o crescimento observado na China. O investimento alto propicia um aumento no estoque de capital físico (máquinas, equipamentos, fábricas etc). Esse movimento expande a capacidade de produção do país. E a migração para a cidade ajuda a aumentar a produtividade da economia, já que os trabalhadores passam a produzir com tecnologias mais sofisticadas do que dispunham vivendo em áreas rurais.

Só que esse processo é limitado. O retorno do investimento tende a cair à medida que o estoque de capital físico aumenta.

Por exemplo, colocar um primeiro shopping em uma cidade provavelmente melhora a vida da população. Mas qual o valor do centésimo shopping, quando já se tem 99 em pleno funcionamento?

Ganhos de produtividade oriundos da mudança de gente para a cidade também têm limites: quanto mais gente sai do campo, menos gente sobra para migrar. As possibilidades de novos aumentos de produtividade por esse canal são, nessas condições, cada vez menores.

Há, no entanto, distorções na economia chinesa causadoras de apreensão.

Ainda que a China não seja mais uma economia, por assim dizem, comunista strictu sensu, o peso do estado é enorme nas decisões econômicas. E começam a aparecer indícios de que os recursos não são exatamente direcionados para os setores e empresas mais produtivos.

Temos relatos de cidades novinhas na China, mas para onde ninguém quer mudar.

Abundam também exemplos de empresas “zumbis”, de lucratividade muito baixa, mas que sobrevivendo na base de subsídios e crédito barato, fornecidos pelo governo chinês. Aparentemente, os governantes temem que a falência de empresas desemboque em desemprego e pressão social por reformas.

Importante: a China é ainda um país pouco transparente e democrático. Isso parece trazer vantagens para quem está mais próximo do poder. As empresas de sucesso não serão necessariamente as mais produtivas e inovadoras. Esse benefício tende a ser exclusividade dos "amigos do Rei".

Todas essas distorções reduzem a produtividade da economia como um todo. Só que agora, com crescimento lá nas alturas, elas tendem a ficar escondidas. Se essas fontes de crescimento (investimento e migração) secarem, problemas serão aflorados lá na frente.

O pânico entre investidores certamente explica parte do movimento da bolsa chinesa nesse começo do ano. Mas fica a impressão de que fatores reais – além de distorções que ameaçam a produtividade dessa economia no futuro – são também importantes. E isso traz temores tanto para a trajetória de crescimento da China no longo prazo, como para a economia mundial. Afinal, a China é uma economia gigantesca. E está cada vez mais interligada com o resto do mundo.

 

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