Por que preços sobem (ou não) em tragédias?

Desastres como terremotos, enchentes e furacões tendem a provocar escassez dos itens mais fundamentais. Primeiro, porque fica mais difícil levar produtos para as regiões afetadas. Segundo, porque as pessoas correm ao comércio para estocar produtos em casa, preparando-se para o pior.

Normalmente espera-se que esse movimento de escassez leve a um aumento de preços. As pessoas, entretanto, revoltam-se quando veem preços astronômicos nessas condições. Como pode um comerciante querer ganhar dinheiro justamente em um momento de sofrimento?

A imagem abaixo dá uma amostra desse sentimento; nesse caso, a pessoa se refere à cidade de Governador Valadares (MG), que entrou em estado de calamidade em 2015,  por causa do lamaçal lançado no rio Doce, em consequência da quebra da barragem da Samarco.

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Entretanto, como argumentamos em texto anterior, a subida de preços tem uma vantagem muito clara. É ela que provê incentivos para que os itens escassos cheguem às regiões afetadas. Comerciantes, vendo oportunidades de lucro temporárias, topam risco e custos elevados para levar água, por exemplo, para locais onde ela é mais necessária.

Na ausência de um preço mais alto, esse incentivo é eliminado.
Empiricamente, vemos preços subirem quando ocorre uma tragédia?
O artigo de Alberto Cavallo, Eduardo Cavallo e Roberto Rigobon avalia o comportamento de preços e da disponibilidade de produtos em duas dessas tragédias recentes: os terremotos do Chile (2010) e do Japão (2011). Os dados vêm do “Billion Prices Project”, do MIT, um projeto de fôlego que coleta preços online de diversas lojas ao redor do mundo. Para uma subamostra de estabelecimentos observam-se também os preços em lojas físicas, com vistas a garantir que os preços na internet são representativos.

Os autores não encontram evidências de que os preços se alteraram nesses dois eventos catastróficos. A figura abaixo (retirada do artigo) ilustra o resultado. Os gráficos de cima são uma média dos preços ao longo do tempo; e os gráficos de baixo referem-se a um índice de disponibilidade de produtos. As linhas vermelhas indicam as datas dos terremotos em cada país. Note que os preços são relativamente estáveis em torno do evento, e só começam a subir depois de 6 meses no Chile e 4 meses no Japão. A disponibilidade de produtos, por outro lado, despenca nas datas das tragédias.

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O que pode explicar esse comportamento das lojas?
Como mencionamos acima, muita gente entende que majorar preços em tragédias é uma atitude condenável. A loja pode ser punida por seus clientes, que deixariam de comprar ali. E essa atitude pode ir além daquele momento difícil. A perda de clientela pode ser permanente.

O lojista faz a conta e vê que não vale mesmo a pena se beneficiar daquela situação esporádica para ganhar uns trocados a mais. Não compensa a perda permanente de vendas oriunda da fúria dos consumidores.

O efeito ainda pode extrapolar o local da tragédia. Muitas dessas lojas são cadeias nacionais e até internacionais. Gente do mundo inteiro, de olho naquela situação, se indignaria com a atitude do vendedor que aumenta seus preços. E isso poderia comprometer as vendas em outros lugares. Mais um incentivo a manter o preço parado.

Mas isso não quer dizer que preços “abusivos” não sejam praticados quando ocorre uma tragédia. Apenas indica que, na amostra de lojas estudada pelos autores, não há evidência de majoração de preços. E essas são tipicamente integrantes de grandes cadeias.

Certamente há indivíduos (como vendedores de água) que se dirigem ao local para ganhar uma grana rápida. Essas pessoas podem cobrar preços altos, sem se preocupar com repercussões no futuro. Afinal, não estarão mais ali quando a situação de calamidade passar. Provavelmente nem estarão vendendo água ou outros itens de extrema necessidade. Ao contrário do grande cadeia de supermercados, não têm uma reputação a zelar.

Tragédias só oferecem uma situação extrema para observarmos vendedores que estão ali para ganhar uma grana rápida, cobrando preços bem elevados. É só pensar nas nossas grandes metrópoles, quando em um dia de calor um congestionamento se forma inesperadamente por causa de um acidente. De uma hora para outra começam a aparecer vendedores de água. Note que nenhum deles está vestido com uniforme do Wal-Mart ou do Pão de Açúcar.

Colaborou Giovana Stein, aluna de graduação em Economia da FEA/USP

 

 
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