Se alguém que se preocupa com o meio ambiente for questionado sobre o quanto uma empresa ou país deve poluir, parece razoável supor que a resposta seja “zero”. Porém, a verdade é que no modelo de sociedade em que vivemos atualmente é impossível ter poluição zero. A maior parte das atividades da economia gera algum tipo de “resíduo” ou de “males ambientais”. E sabemos que, como foi percebido durante a expansão da covid-19 no mundo e o consequente lockdown, é impossível (e indesejável) parar completamente a economia para chegar a esse zero. As pessoas precisam se alimentar, trabalhar etc., e em todas essas atividades é inevitável algum tipo de exploração do meio ambiente, com subprodutos como poluição, desmatamento, redução de biodiversidade. Então qual deve ser o desgaste “ótimo”? Isto é, quanto de poluição é aceitável tendo em vista as necessidades da sociedade? Quanto de uso de recursos ambientais pode ser tolerado para que eles não se esgotem no longo prazo? A resposta para essas perguntas não é tão fácil.

Na economia tradicional, costuma-se pensar que há um trade-off entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental. Isto é, que para que a economia cresça, será necessário sacrificar um pouco do meio ambiente, ou que para que se possa preservar ecossistemas será preciso abrir mão de ganhos monetários de indivíduos, empresas, países etc. Uma forma usada para ilustrar essa ideia nos livros é a de uma curva, chamada “fronteira de possibilidade de produção”. A curva mostra que um aumento na proteção ambiental envolve um custo de oportunidade de menor produção econômica. Assim, cada sociedade terá de pesar seus próprios valores e decidir se prefere mais produção econômica e menos proteção ambiental ou outra combinação dos dois elementos. A partir dessa escolha será então derivado o ótimo de poluição que um país deve gerar. Mas como os países vão tomar esse tipo de decisão?

Fazer essas contas é bem complicado. A “proteção ambiental” não é algo que está no mercado. Não há um preço ou valor dado para proteger recursos naturais. Por isso, fica difícil comparar os ganhos econômicos (mais facilmente monetizados) com os ganhos ou custos ambientais. Mas, caso países escolham crescer economicamente à custa do meio ambiente, certamente irão arcar esses custos no futuro, inclusive de forma monetária.

Por exemplo: por causa do aquecimento global e da emergência climática, será mais custoso produzir comida. Também pode haver um aumento da incidência de algumas doenças relacionadas com mudanças climáticas ou resultado de ações humanas como desmatamento (doenças transmitidas por insetos, como a malária), ou de poluição do ar (como asma e doenças respiratórias em crianças e idosos). Essas doenças trarão custos para o governo com internações e tratamento. Mudanças climáticas podem, ainda, gerar exposição a novos patógenos que poderiam desencadear outras pandemias (como a de covid) no futuro.

Isso traz questionamentos claros para o trade-off de que para que se possa ter ganhos econômicos deve-se sacrificar proteção ambiental. No longo prazo, certamente, crescimento que não se preocupe com depredação ambiental será insustentável. Será então que o meio ambiente e a economia são assim tão incompatíveis?

Atualmente, o mercado está sinalizando em outra direção. Principalmente no contexto atual de emergência climática e demanda por sustentabilidade, cada vez mais surgem iniciativas mostrando como o valor implícito dos recursos naturais pode se traduzir em ganhos econômicos, indo em sentido contrário ao desse trade-off. Um exemplo clássico são os créditos de carbono, que, de forma bem simplificada, são certificados emitidos para uma pessoa ou empresa que reduziu sua emissão de gases de efeito estufa, e que podem ser trocados no mercado.

Graças a produtos assim, muita gente começou a apostar em estratégias que beneficiem o meio ambiente. Hoje em dia, no mundo inteiro tem se falado muito em subsídios para agricultura de baixo carbono, investimentos do tipo ESG, negócios sustentáveis, economia circular etc. Os dados, cada vez mais, parecem confirmar que recursos naturais e meio ambiente também são ativos econômicos.

O Brasil é um país que, por sua riqueza de recursos naturais (fica em nosso território a maior parte da mais extensa floresta tropical do mundo, a Amazônia, por exemplo), teria muito a ganhar ao impulsionar esse movimento de monetizar a agenda ambiental. Inclusive, há quem diga que isso poderia ser a chave para o Brasil se recuperar da crise econômica criada pelas decisões políticas dos últimos anos e pela pandemia de covid-19. Essa seria a famosa “recuperação econômica verde” que tanto tem aparecido em pautas políticas, baseada em aportes e investimentos focados na diminuição da emissão de gases poluentes e que incentivem o não desmatamento e o uso de energia limpa. Esse conceito e outros relacionados com a economia ambiental serão abordados de forma simples, sem “economês”, nas nossas próprias publicações.

Luiza Martins Karpavicius
Economista formada pela FEA/USP. Trabalha na área de economia do meio ambiente e dos recursos naturais. É mestre pela Universidade de Copenhague e doutoranda na Universidade de Aarhus, na Dinamarca.

COLUNA PUBLICADA NA FOLHA DE SÃO PAULO

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Precisamos escolher entre economia e meio ambiente?

Se alguém que se preocupa com o meio ambiente for questionado sobre o quanto uma empresa ou país deve poluir, parece razoável supor que a resposta seja “zero”. Porém, a verdade é que no modelo de sociedade em que vivemos atualmente é impossível ter poluição zero. A maior parte das atividades da economia gera algum tipo de “resíduo” ou de “males ambientais”. E sabemos que, como foi percebido durante a expansão da covid-19 no mundo e o consequente lockdown, é impossível (e indesejável) parar completamente a economia para chegar a esse zero. As pessoas precisam se alimentar, trabalhar etc., e em todas essas atividades é inevitável algum tipo de exploração do meio ambiente, com subprodutos como poluição, desmatamento, redução de biodiversidade. Então qual deve ser o desgaste “ótimo”? Isto é, quanto de poluição é aceitável tendo em vista as necessidades da sociedade? Quanto de uso de recursos ambientais pode ser tolerado para que eles não se esgotem no longo prazo? A resposta para essas perguntas não é tão fácil.

Na economia tradicional, costuma-se pensar que há um trade-off entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental. Isto é, que para que a economia cresça, será necessário sacrificar um pouco do meio ambiente, ou que para que se possa preservar ecossistemas será preciso abrir mão de ganhos monetários de indivíduos, empresas, países etc. Uma forma usada para ilustrar essa ideia nos livros é a de uma curva, chamada “fronteira de possibilidade de produção”. A curva mostra que um aumento na proteção ambiental envolve um custo de oportunidade de menor produção econômica. Assim, cada sociedade terá de pesar seus próprios valores e decidir se prefere mais produção econômica e menos proteção ambiental ou outra combinação dos dois elementos. A partir dessa escolha será então derivado o ótimo de poluição que um país deve gerar. Mas como os países vão tomar esse tipo de decisão?

Fazer essas contas é bem complicado. A “proteção ambiental” não é algo que está no mercado. Não há um preço ou valor dado para proteger recursos naturais. Por isso, fica difícil comparar os ganhos econômicos (mais facilmente monetizados) com os ganhos ou custos ambientais. Mas, caso países escolham crescer economicamente à custa do meio ambiente, certamente irão arcar esses custos no futuro, inclusive de forma monetária.

Por exemplo: por causa do aquecimento global e da emergência climática, será mais custoso produzir comida. Também pode haver um aumento da incidência de algumas doenças relacionadas com mudanças climáticas ou resultado de ações humanas como desmatamento (doenças transmitidas por insetos, como a malária), ou de poluição do ar (como asma e doenças respiratórias em crianças e idosos). Essas doenças trarão custos para o governo com internações e tratamento. Mudanças climáticas podem, ainda, gerar exposição a novos patógenos que poderiam desencadear outras pandemias (como a de covid) no futuro.

Isso traz questionamentos claros para o trade-off de que para que se possa ter ganhos econômicos deve-se sacrificar proteção ambiental. No longo prazo, certamente, crescimento que não se preocupe com depredação ambiental será insustentável. Será então que o meio ambiente e a economia são assim tão incompatíveis?

Atualmente, o mercado está sinalizando em outra direção. Principalmente no contexto atual de emergência climática e demanda por sustentabilidade, cada vez mais surgem iniciativas mostrando como o valor implícito dos recursos naturais pode se traduzir em ganhos econômicos, indo em sentido contrário ao desse trade-off. Um exemplo clássico são os créditos de carbono, que, de forma bem simplificada, são certificados emitidos para uma pessoa ou empresa que reduziu sua emissão de gases de efeito estufa, e que podem ser trocados no mercado.

Graças a produtos assim, muita gente começou a apostar em estratégias que beneficiem o meio ambiente. Hoje em dia, no mundo inteiro tem se falado muito em subsídios para agricultura de baixo carbono, investimentos do tipo ESG, negócios sustentáveis, economia circular etc. Os dados, cada vez mais, parecem confirmar que recursos naturais e meio ambiente também são ativos econômicos.

O Brasil é um país que, por sua riqueza de recursos naturais (fica em nosso território a maior parte da mais extensa floresta tropical do mundo, a Amazônia, por exemplo), teria muito a ganhar ao impulsionar esse movimento de monetizar a agenda ambiental. Inclusive, há quem diga que isso poderia ser a chave para o Brasil se recuperar da crise econômica criada pelas decisões políticas dos últimos anos e pela pandemia de covid-19. Essa seria a famosa “recuperação econômica verde” que tanto tem aparecido em pautas políticas, baseada em aportes e investimentos focados na diminuição da emissão de gases poluentes e que incentivem o não desmatamento e o uso de energia limpa. Esse conceito e outros relacionados com a economia ambiental serão abordados de forma simples, sem “economês”, nas nossas próprias publicações.

Luiza Martins Karpavicius
Economista formada pela FEA/USP. Trabalha na área de economia do meio ambiente e dos recursos naturais. É mestre pela Universidade de Copenhague e doutoranda na Universidade de Aarhus, na Dinamarca.

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