Qual o papel da mulher na economia? Muito além do supermercado

O Dia Internacional da Mulher, celebrado na última semana, virou sinônimo de catarse coletiva. Mulheres no mundo todo saem às ruas – de forma mais ou menos ordenada, com bandeiras mais ou menos legítimas. Outras recebem flores e cumprimentos – mais ou menos adequados –, outras ganham até um dia de folga (para ir ao cabeleireiro?) e outras se perguntam se isso tudo faz sentido. Mas a maior parte certamente nem sequer tem tempo para pensar que tem um dia para chamar de seu ou mesmo para achar que isso vai mudar sua vida.

Mas, independentemente do dia 8 de março, vale a pena aproveitar a ocasião – e a mobilização em torno do tema – para fazermos algumas importantes reflexões.

As mulheres são metade da população mundial. Nada mais natural, portanto, do que esperar que elas tenham igualdade de acesso a saúde, educação, renda e representação política. Mas essa não é a realidade na maior parte do mundo. Um estudo do World Economic Forum, a partir de uma amostra de 144 países, revela: à exceção dos países nórdicos europeus, onde a desigualdade de gêneros já se reduziu de forma significativa, na maioria dos países o chamado “gender gap” ainda é enorme e vem sendo reduzido de forma muito lenta. O Brasil ocupa a nada honrosa 79a posição no índice global, sendo puxado para baixo nos itens de representação política e de participação na economia (86a e 91a posições respectivamente).

No campo político é notório que há poucas mulheres atuantes no Brasil. Tanto no Legislativo quanto no Executivo, são poucas as que chegam a conquistar uma cadeira no Parlamento ou a ocupar um posto relevante na administração pública. Isso tem mudado, mas muito devagar. Não deixa de chamar a atenção, contudo, que boa parte das leis e das políticas públicas voltadas à população em geral e às mulheres em particular sejam elaboradas e aprovadas majoritariamente por homens. Com baixa contribuição de mulheres na defesa de conceitos, na avaliação de resultados e nas escolhas das políticas e leis, é de se esperar que haja uma tendência a se perpetuar a situação atual e, portanto, a desigualdade.

Mas é no campo econômico, mais especificamente no quesito igualdade de oportunidades e participação na economia, que temos os piores indicadores de desigualdades de gênero. Essa situação se traduz em baixa participação da mulher na força de trabalho, em menor remuneração no exercício de atividades similares, em renda média menor e na reduzida presença feminina em cargos de chefia, indicando que desigualdade de gênero se apresenta no Brasil como falta de oportunidade e baixa representação feminina no mercado de trabalho. Ou seja, há menos mulheres trabalhando; quando trabalham, ocupam cargos de salário mais baixo ou ganham menos do que um homem que exerce a mesma função. Elas têm, ainda, menos chances de promoção. Isso tudo independentemente de serem mais bem preparadas ou produtivas do que os homens.

Há quem defenda absurdamente que esse “gender gap” é uma consequência das vantagens comparativas das mulheres em educar os filhos e cuidar da casa. Trata-se de um erro clássico de inferência, pois a maior parte das mulheres não teve alternativa. Se ela faz isso bem, não significa que o homem também não o possa fazer. Ou seja, como o próprio estudo do WEF mostra com a experiência nórdica, não há justificativas que não as culturais para isso. Afinal, a busca pela igualdade de gêneros vai além do campo da justiça social e do tratamento igualitário para homens e mulheres. Significa criar oportunidades para que metade da força de trabalho, metade dos talentos e das habilidades humanas tenha oportunidades e condições adequadas para participar do mercado de trabalho, produzindo, gerando renda, inovando. Consequentemente, contribuindo para o crescimento e o desenvolvimento econômico global.

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Por Ana Carla Abrão, economista e ex-secretária da Fazenda de Goiás

 

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