A pandemia acelerou a tendência prévia de digitalização de processos de produção privada de bens e serviços e de prestação de serviços públicos, assim como a transformação digital. Empresas e outras organizações iniciaram processos de transformação digital, ou seja, mudanças organizacionais transversais para implementar um uso mais profundo das tecnologias digitais. Além de digitalizar informações processos e funções que compõem as operações de uma organização, a organização em si e sua estratégia foram transformadas por esse esse movimento.


A digitalização e, em muitos casos, transformação digital mais decisiva e intensiva de todos os tempos ocorreu na esteira da crise pandêmica. Em apenas alguns meses, a pandemia trouxe anos de mudanças na forma como operam muitas empresas e organizações privadas e públicas em todos os setores e regiões, servindo como catalisadora para a mudança.

Em muitos casos, a transformação digital não era uma prioridade estratégica antes da pandemia, mas passou a ser desde então. Uma mudança irreversível em estratégias organizacionais se sobrepôs a hesitações prévias, com os resultados corroborando a opção.

A digitalização e a transformação digital também exigirão regulamentação adequada e transparência no uso dos dados. O matemático britânico Clive Humby cunhou em 2016 a frase “dados são o novo petróleo”. Na verdade, como disse o estudioso de tecnologia James Bridle em um livro em 2018, também se pode afirmar que "os dados são a nova energia nuclear". Ou seja, são uma mercadoria valiosa e poderosa, mas também têm enorme capacidade de causar danos.

Tivemos recentemente alguns exemplos da vulnerabilidade dos sistemas digitalizados à manipulação dos dados, como nas eleições nos Estados Unidos em 2016, o processo do Brexit no Reino Unido e vários outros processos eleitorais.

Além disso, os riscos à segurança cibernética têm de ser enfrentados. Neste ano já testemunhamos ataques – por motivações políticas ou visando a resgate – em empresas, em pontos-chave de cadeias de abastecimento e em infraestruturas críticas – e também em órgãos públicos, como o recente ataque cibernético ao Ministério da Saúde no Brasil. A segurança cibernética e contra o uso indevido de dados se tornou mais necessária do que nunca, algo só alcançável com regulamentação e supervisão adequadas.

Digitalização das finanças

O setor financeiro é um caso especial de rápida mudança tecnológica, tendência reforçada pela pandemia. Os bancos tradicionais tiveram de se adaptar a um ambiente de competição em que intermediários financeiros on-line operam sem agências físicas. Pagamentos e crédito cada vez mais são feitos com o uso de plataformas digitais. O aumento da demanda por serviços digitais desencadeada pela pandemia acelerou essa transformação.

A confluência que estamos testemunhando está impulsionando a inovação em fintechs e levantando questões importantes. Como bem abordado por Arnoud Boot, Peter Hoffmann, Luc Laeven e Lev Ratnovski em uma postagem no blog do FMI em 17 de dezembro de 2020 (“O que há de realmente novo em fintech”), a recente transformação financeira digital tem mudado a coleta e o uso de informação, a comunicação e as necessidades relativas à regulamentação prudencial.

Sobre informações: a coleta e a análise de dados sobre os clientes agora podem se beneficiar do uso de sua pegada digital para melhorar a análise de solvência. Os autores chamam a atenção para a inteligência artificial e o aprendizado por máquinas como fatores de melhora na qualidade da avaliação quando comparados com as técnicas convencionais baseadas simplesmente em renda, tempo de trabalho, ativos e dívidas.

Além disso, podem promover a inclusão financeira, permitindo, por exemplo, mais crédito para trabalhadores informais e famílias e empresas em áreas rurais. A competição geográfica entre provedores de serviços tende a ser reforçada pela possibilidade de atendimento a clientes mais distantes.

A comunicação também mudou no que diz respeito ao relacionamento com o cliente e à distribuição de produtos financeiros. Não por acaso, as grandes plataformas começaram a incorporar serviços financeiros em seus ecossistemas, permitindo o surgimento de novos provedores especializados que competem com os bancos em pagamentos, gerenciamento de ativos e fornecimento de informações financeiras. No Brasil, o sucesso da expansão do PIX, criado pelo Banco Central, no comércio, em tão pouco tempo, sugere como é vasto o alcance potencial da digitalização e da transformação digital nas finanças.

A regulamentação prudencial também será obrigada a se adaptar, uma vez que os riscos operacionais de novas tecnologias de crédito e modelos de negócios têm de ser avaliados. Os riscos de segurança cibernética e a arbitragem regulatória precisam ser enfrentados. E os reguladores devem manter sua capacidade para não serem deixados para trás pela inventividade do mercado.

Outras áreas críticas incluem a política de concorrência, para abordar as tendências monopolísticas de grandes plataformas digitais, e a tendência natural de convergir em sua direção, além de políticas de dados para garantir a privacidade do consumidor, bem como de coleta, processamento e troca de dados eficientes e seguros.

Como bem disseram Boot, Hoffmann, Laeven e Ratnovski no blog do FMI:
“No geral, embora muito do progresso tecnológico em finanças seja evolutivo, seu ritmo está se acelerando rapidamente. O potencial da Fintech de alcançar mais de um bilhão de pessoas fora dos bancos em todo o mundo e as mudanças na estrutura do sistema financeiro que isso pode trazer podem ser revolucionárias.”

A transformação digital acelerada, inclusive das finanças, está entre os legados da crise da pandemia.

* Texto baseado em palestra para o Infoparliament da Hungria.

Otaviano Canuto é membro sênior do Policy Center for the New South, membro sênior não-residente do Brookings Institute, professor na Elliott School of International Affairs da George Washington University e principal do Center for Macroeconomics and Development em Washington. Foi vice-presidente e diretor executivo no Banco Mundial, diretor executivo no FMI e vice-presidente no BID. Também foi secretário de assuntos internacionais no Ministério da Fazenda e professor da USP e da Unicamp

COLUNA PUBLICADA NA FOLHA DE SÃO PAULO

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Transformação digital acelerada

A pandemia acelerou a tendência prévia de digitalização de processos de produção privada de bens e serviços e de prestação de serviços públicos, assim como a transformação digital. Empresas e outras organizações iniciaram processos de transformação digital, ou seja, mudanças organizacionais transversais para implementar um uso mais profundo das tecnologias digitais. Além de digitalizar informações processos e funções que compõem as operações de uma organização, a organização em si e sua estratégia foram transformadas por esse esse movimento.


A digitalização e, em muitos casos, transformação digital mais decisiva e intensiva de todos os tempos ocorreu na esteira da crise pandêmica. Em apenas alguns meses, a pandemia trouxe anos de mudanças na forma como operam muitas empresas e organizações privadas e públicas em todos os setores e regiões, servindo como catalisadora para a mudança.

Em muitos casos, a transformação digital não era uma prioridade estratégica antes da pandemia, mas passou a ser desde então. Uma mudança irreversível em estratégias organizacionais se sobrepôs a hesitações prévias, com os resultados corroborando a opção.

A digitalização e a transformação digital também exigirão regulamentação adequada e transparência no uso dos dados. O matemático britânico Clive Humby cunhou em 2016 a frase “dados são o novo petróleo”. Na verdade, como disse o estudioso de tecnologia James Bridle em um livro em 2018, também se pode afirmar que "os dados são a nova energia nuclear". Ou seja, são uma mercadoria valiosa e poderosa, mas também têm enorme capacidade de causar danos.

Tivemos recentemente alguns exemplos da vulnerabilidade dos sistemas digitalizados à manipulação dos dados, como nas eleições nos Estados Unidos em 2016, o processo do Brexit no Reino Unido e vários outros processos eleitorais.

Além disso, os riscos à segurança cibernética têm de ser enfrentados. Neste ano já testemunhamos ataques – por motivações políticas ou visando a resgate – em empresas, em pontos-chave de cadeias de abastecimento e em infraestruturas críticas – e também em órgãos públicos, como o recente ataque cibernético ao Ministério da Saúde no Brasil. A segurança cibernética e contra o uso indevido de dados se tornou mais necessária do que nunca, algo só alcançável com regulamentação e supervisão adequadas.

Digitalização das finanças

O setor financeiro é um caso especial de rápida mudança tecnológica, tendência reforçada pela pandemia. Os bancos tradicionais tiveram de se adaptar a um ambiente de competição em que intermediários financeiros on-line operam sem agências físicas. Pagamentos e crédito cada vez mais são feitos com o uso de plataformas digitais. O aumento da demanda por serviços digitais desencadeada pela pandemia acelerou essa transformação.

A confluência que estamos testemunhando está impulsionando a inovação em fintechs e levantando questões importantes. Como bem abordado por Arnoud Boot, Peter Hoffmann, Luc Laeven e Lev Ratnovski em uma postagem no blog do FMI em 17 de dezembro de 2020 (“O que há de realmente novo em fintech”), a recente transformação financeira digital tem mudado a coleta e o uso de informação, a comunicação e as necessidades relativas à regulamentação prudencial.

Sobre informações: a coleta e a análise de dados sobre os clientes agora podem se beneficiar do uso de sua pegada digital para melhorar a análise de solvência. Os autores chamam a atenção para a inteligência artificial e o aprendizado por máquinas como fatores de melhora na qualidade da avaliação quando comparados com as técnicas convencionais baseadas simplesmente em renda, tempo de trabalho, ativos e dívidas.

Além disso, podem promover a inclusão financeira, permitindo, por exemplo, mais crédito para trabalhadores informais e famílias e empresas em áreas rurais. A competição geográfica entre provedores de serviços tende a ser reforçada pela possibilidade de atendimento a clientes mais distantes.

A comunicação também mudou no que diz respeito ao relacionamento com o cliente e à distribuição de produtos financeiros. Não por acaso, as grandes plataformas começaram a incorporar serviços financeiros em seus ecossistemas, permitindo o surgimento de novos provedores especializados que competem com os bancos em pagamentos, gerenciamento de ativos e fornecimento de informações financeiras. No Brasil, o sucesso da expansão do PIX, criado pelo Banco Central, no comércio, em tão pouco tempo, sugere como é vasto o alcance potencial da digitalização e da transformação digital nas finanças.

A regulamentação prudencial também será obrigada a se adaptar, uma vez que os riscos operacionais de novas tecnologias de crédito e modelos de negócios têm de ser avaliados. Os riscos de segurança cibernética e a arbitragem regulatória precisam ser enfrentados. E os reguladores devem manter sua capacidade para não serem deixados para trás pela inventividade do mercado.

Outras áreas críticas incluem a política de concorrência, para abordar as tendências monopolísticas de grandes plataformas digitais, e a tendência natural de convergir em sua direção, além de políticas de dados para garantir a privacidade do consumidor, bem como de coleta, processamento e troca de dados eficientes e seguros.

Como bem disseram Boot, Hoffmann, Laeven e Ratnovski no blog do FMI:
“No geral, embora muito do progresso tecnológico em finanças seja evolutivo, seu ritmo está se acelerando rapidamente. O potencial da Fintech de alcançar mais de um bilhão de pessoas fora dos bancos em todo o mundo e as mudanças na estrutura do sistema financeiro que isso pode trazer podem ser revolucionárias.”

A transformação digital acelerada, inclusive das finanças, está entre os legados da crise da pandemia.

* Texto baseado em palestra para o Infoparliament da Hungria.

Otaviano Canuto é membro sênior do Policy Center for the New South, membro sênior não-residente do Brookings Institute, professor na Elliott School of International Affairs da George Washington University e principal do Center for Macroeconomics and Development em Washington. Foi vice-presidente e diretor executivo no Banco Mundial, diretor executivo no FMI e vice-presidente no BID. Também foi secretário de assuntos internacionais no Ministério da Fazenda e professor da USP e da Unicamp

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