A Oxfam e o 1% de super-ricos

Há poucos dias, a ONG inglesa Oxfam, que tem por objetivo declarado ajudar a reduzir a pobreza e desigualdade no mundo, anunciou o resultado de um estudo bombástico: em 2017, de acordo com a instituição, 82% da riqueza gerada globalmente teria ficado nas mãos do 1% mais rico do mundo.

É um número de causar vertigens. Felizmente, ainda que habitemos um mundo desigual, esse número está errado. Muito errado.

Que o leitor não nos entenda mal: vemos como fundamentais tanto o tema como as políticas públicas dirigidas a mitigar a abissal diferença de oportunidades que se abrem tão assimetricamente para pobres e não-pobres. Mas não se pode zoar com os dados, até porque isso atrapalha a credibilidade da luta por um mundo mais igual.

Antes de mais nada, é preciso separar as noções de riqueza e de renda. A grande maioria dos estudos empíricos sobre desigualdade foca na desigualdade de renda, dada a enorme escassez de dados confiáveis de riqueza. Riqueza é uma variável de estoque. Se tenho uma casa de 500 mil reais e mais 100 mil reais na poupança, minha riqueza é de 600 mil reais. Estoque! Já se durante 2017 meus ganhos do trabalho e dos juros da poupança totalizaram 100 mil reais, essa é minha renda para aquele período. A renda é um fluxo: quanto ganhei entre janeiro de 2017 e janeiro de 2018. A riqueza é uma foto: quanto possuía estocado (em casa, títulos do governo, bolsa, ouro escondido no terreno, terreno, cabras, etc) num dado ponto do tempo: janeiro de 2018.

O estudo da Oxfam fala em riqueza obtida durante o ano que passou. Então entendemos que eles estejam se referindo a um fluxo, tratando-se portanto de renda, e não de riqueza. Ou então a Oxfam falou errado e precisa esclarecer. De todo modo, trate-se de renda ou riqueza, o número é fora de esquadro.

Antes de olhar os dados, dois comentários importantes, um teórico e outro empírico.

Primeiro, como mostra a pesquisa acadêmica recente, a desigualdade de renda entre habitantes do mundo vem caindo, não subindo, graças ao crescimento econômico nas superpopulosas e até pouco tempo muitíssimo pobres China e Índia. Segundo, usar dado de riqueza é problemático por duas razões: (1) são mais escassos que os de renda e (2) eles podem esconder realidades díspares atrás de um mesmo número.

A respeito do segundo fator, vejam só o curioso exemplo do professor Irineu. O sujeito ganha um salário gordo de 25 mil reais por mês (pois é competente), mas gasta tudo em roupas caras, festas e uísques. Sua riqueza é zero, pois ele não poupa um tostão e mora de aluguel. Já o professor André é um perfeito representante da classe dos estoicos, em que pese não ser tão brilhante. Ganha 8 mil por mês, mas como tem hábitos de gafanhoto, sempre poupa 30% de sua renda. André tem uma poupança de 200 mil reais e um apartamento de 400 mil onde vive com suas três gatas.

Quem é mais rico? Segundo o critério do estoque de riqueza, André. Mas será possível, dado que a renda de Irineu é três vezes maior? No nosso entendimento, a medida de renda conta uma história mais fidedigna da realidade do que a de riqueza.

É fato que a desigualdade de renda e de riqueza – embora esteja caindo entre cidadãos do mundo, por exemplo, entre americanos e chineses – vem crescendo dentro de muitos países (não no Brasil, é bom lembrar). Os números, contudo, são bem outros dos aventados pela Oxfam. A renda dos 1% mais ricos, nos países mais desiguais do mundo para o qual temos dados confiáveis, está mais para 15% a 20% do total. E mesmo quando a variável de análise é a riqueza, os valores dificilmente alcançam a metade do divulgado pela Oxfam.

Os gráficos abaixo deixam isso claro. No primeiro, que mostra a evolução da desigualdade de riqueza, traçamos a linha que representa a desigualdade de 2017 segundo a Oxfam. É como se a ONG estivesse dizendo algo do tipo: no ano de 2017 o 1% mais alto da população mundial apresentou uma altura média de 4 metros, a despeito de estudos cuidadosos com dados até 2014 indicarem algo mais perto de 1,80m.

riqueza-oxfam renda-oxfam

 
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