As commodities não vão salvar o Brasil, parte 2

Lá nos dados não se encontra... Uma coisa não vira verdade empírica só porque é repetida à exaustão. Isso vale, especificamente, ao lugar-comum de que o crescimento do Brasil está claramente amarrado ao preço das commodities: “se elas  vão bem, o Brasil vai bem; mas quando fraquejam, o crescimento se manda para outros lugares e as saúvas tomam conta do território nacional”.  Os dados desmentem essa conversa. Há algum mal-entendido nisso tudo? Tem de haver, não é possível. Começando pelo começo: é preciso definir direito de que “commoditie” se está falando. O ferro? O ferro, a soja e o cafezinho? Normalmente, as pessoas que defendem a existência de uma relação umbilical entre commodities e crescimento lançam mão de um índice chamado CRB, onde se encontram todas as commodities (ou quase), devidamente ponderadas pela sua importância no comércio internacional. E é aí que começa a confusione. La confusione - prima Um país X qualquer nunca apenas exporta commodities! Ele exporta algumas e importa outras, por mar, terra ou ar. Ululante. Se a nação X exporta soja, mas importa carne (e mais nada, só pra facilitar a exposição, larga do meu pé), sua economia será favorecida por uma alta da soja, mas será adversamente impactada por uma alta da carne, correto? Correto e quase ululante. Mas vejam que curioso: dois ululantes em sequência podem desembocar em algo não óbvio. Pergunta:  o que ocorre com um índice de preço de commodities que incorpora todas as commodities (ou presque)? Nesse caso, com a carne e a soja em alta, o índice só pode subir. Mas para quem exporta uma e importa a outra, o líquido é positivo? Se subirem na mesma quantidade, um chute inicial é que na verdade nada mudou. Como quando seu salário sobe, mas a mensalidade da escola também sobe... Um chute inicial nem tão ruim nem tão bom... Como chute inicial, não parece má essa aproximação. Mas, olhando com a lupa do economista, a gente vê que tem mais coisa por baixo da superfície. Se os preços da carne, do café, do ferro, do aço, do nióbio e da soja estão todos (ou quase) em alta, é muito provavelmente porque a economia mundial deve estar andando a passo lépido e as pessoas comendo mais e construindo mais coisas. Assim, e voltando ao país X com suas duas commodities, uma situação em que a razão “preço da soja/preço da carne” esteja estável porque ambos estão subindo é muito diferente do que uma na qual a estabilidade de termo de troca (esse é o jargão!) se deva à queda de ambos os preços, por exemplo. La confusione – seconda O índice dos preços das diversas commodities (o tal CRB) então funciona como um termômetro geral do estado da economia mundial, não das fortunas ou infortúnios específicos do país X. Achar que um índice de preços de commodities anda de mãozinhas dadas com o crescimento da economia brasileira só nos diz o semiululante: quando a economia mundial toda vai bem, a nossa também tende a ir bem (ou quase). Mas não é o preço das commodities o fator explicativo – é isso que queríamos falar desde a primeira linha, mas não o fizemos na tentativa de manter o didatismo à frente da maldita ansiedade do escriba que mete o dedo no papel já sabendo aonde quer chegar. Ele apenas resume o que está rolando no geral. É o termômetro, já disse. Do geral para o específico Ok, entendido. UNO: O índice contendo o preço da carne e da soja (no mundo real, damn it!, é o CRB com várias commodities enfiadas lá dentro) é um indicador do vigor da economia mundial, enquanto DUE: a razão “preço soja/preço carne” é o termo de troca do país que exporta o numerador e importa o numerador. Em tese, quanto maior o termo de troca, melhor estou: meu salário subiu e a mensalidade da escola não tanto — ou até caiu, sei lá. Go with the flow... before 2012, bien sûr É verdade que o país foi melhor no quesito crescimento na época de preços das commodities em alta, como no período de 2003 a 2008, citado ad nauseam? Resposta: Sim. Mas alto lá! É certo que o país foi melhor que ele mesmo antes do boom, mas foi também melhor que os outros emergentes que também estavam surfando na boa onda mundial? Resposta: Não, como mostra o gráfico abaixo. Entre 2002 e 2008, os outros andaram mais rápido que o Brasil. Isso para não falarmos no período de 1997 a 2002 e no pós-2011. gráfico 01 commodities E a variação do termo de troca, importa para entendermos crescimento do PIB? No grande esquema das coisas, a resposta é um surpreendentíssimo não. Não conta tanto. O termo de troca oscila muito, como um doido, para cima e para baixo de modo alucinado. Na década de 1997 a 2007, ele só fez cair (o gráfico é em taxas; se a taxa é negativa, o bicho está embicando sem parar), mas parece que sem danificar muito o crescimento. E quando ele fica positivo e até mesmo acelera dentro desse positivo (período mais recente), o crescimento só murcha. gráfico 02 commoditiesO leitor reparou... ... que as linhas verdes nos dois gráfico são as mesmas? Não parece, verdade. Mas são idênticas: taxa de crescimento em médias móveis centradas de cinco anos. A ilusão de ótica vem do fato de colocarmos alguém extremamente volátil, o crescimento dos termos de troca, na mesma figura. Fica parecendo que a oscilação da linha verde é menor... Das Ende  Vamos parar de discutir tanto os termos de troca e o preço das commodities. Isso é periférico. O que importa para o crescimento da economia são coisas mais fundamentais, como qualidade institucional e capital humano. O resto – ainda mais para uma economia grande e fechada como a do Brasil - é firula: pode até dar uma empurrada daqui ou dali, mas não faz verão.   Para ficar por dentro do que rola no Por Quê?, clique aqui e assine a nossa Newsletter.
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