Uma plataforma que vai te ajudar a entender um pouco mais de economia.

							Deveríamos ter prestado mais atenção quando Daron Acemoglu, um dos economistas mais influentes da atualidade, disse que as mudanças climáticas requerem “uma reconsideração fundamental de algumas das suposições mais fundamentais da economia”1. A verdade é que, quer os economistas estejam preparados, quer não, o problema do clima exige uma reestruturação brutal da economia como campo de pesquisa.

Primeiramente, a teoria econômica tende a focar em mudanças pequenas no mercado de bens e serviços no curto prazo. No cerne da análise econômica ainda está a mesma função de utilidade que um aluno de graduação aprende em um curso de microeconomia: uma curva que captura a relação de escolha entre consumo hoje ou no futuro. Trata-se de uma ferramenta que ajuda a determinar quanto consumo um tomador de decisão (por exemplo, uma autoridade governamental, mas também um indivíduo comum) deve estar disposto a sacrificar hoje para obter mais valor em algum momento no futuro (a depender do retorno de algum investimento), levando-se em conta que R$ 1 hoje terá menos valor que em, por exemplo, 10 anos, a depender de uma taxa de desconto. São várias as aplicações em que a curva de utilidade é útil, como para entender consumo individual, decisões de investimento e de gastos públicos, planejamento de política tributária e muito mais.

Porém, enquanto aplicar uma taxa de desconto para refletir esse efeito dinâmico de decisões intertemporais de consumo pode fazer sentido no curto prazo, será que é razoável tentar modelar decisões levando em conta um futuro que chegará em 100 anos? E mais, as mudanças climáticas são eventos brutais que vão forçar uma completa reestruturação dos padrões de consumo e vida, o que não pode ser capturado em uma curva de utilidade.

Nos últimos anos, de fato, tem havido avanços teóricos na incorporação de riscos e custos pensando em mudanças climáticas na macroeconomia, principalmente sob a liderança do ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2018, William Nordhaus. São vários os modelos que hoje relacionam economia neoclássica, ciclo do carbono, ciência climática e a previsão sobre impactos do clima, e assim permitem a ponderação de custos e benefícios de tomar medidas para retardar as mudanças climáticas.

Porém, esses custos e benefícios ainda são altamente hipotéticos, principalmente por que estamos falando de coisas que não têm um mercado, ou seja, não têm um valor real. Qual deve ser o valor atribuído a um projeto que pretende conservar uma floresta? Talvez até dê para tentar monetizar o benefício oriundo do carbono que será sequestrado pelas árvores, pensando que esse carbono pode virar créditos que serão comercializados em um mercado de créditos de carbono. Mas e o benefício da biodiversidade? É possível colocar um valor nisso? São perguntas ainda sem respostas, que limitam o quanto esses modelos são úteis para entender a realidade.

Outro ponto importante é que, na teoria econômica, há um princípio muito relevante, chamado de princípio de Tinbergen, em homenagem ao economista que o articulou. O princípio de Tinbergen estabelece que a melhor forma de neutralizar uma falha de mercado (ou especificamente uma externalidade negativa) é por meio de um instrumento de política desenhado especificamente para esse efeito. Isso implica que uma intervenção que não esteja centrada num problema bem definido único pode não se justificar. Pensando nos efeitos negativos da emissão de gases de efeito estufa, o princípio de Tinbergen sugere que a solução é formular um imposto sobre emissões de carbono e implementar esse imposto de forma consistente.

Não é difícil deduzir por que isso é insuficiente: se a mitigação do problema do clima requer uma transição rápida para tecnologias mais limpas, um imposto sobre o carbono terá de ser complementado com subsídios e outros incentivos para impulsionar a inovação e a implantação na direção certa. Mais que isso, sabemos que um imposto sobre carbono pode ter efeitos distorcionários, ou seja, afetar mais populações com renda mais baixa. É certo que essas populações tenham seu poder de consumo ainda mais reduzido, considerando que historicamente são as parcelas da população que menos contribuíram para os efeitos climáticos, e que serão provavelmente as mais afetadas pelo aumento das temperaturas (já que, ao contrário de grupos de maior poder econômico, têm uma capacidade limitada para investir em adaptação climática)?

A crise climática exige que consideremos ideias mais radicais. Se chegarmos a um consenso sobre a necessidade de investimentos fortes na transição para a energia limpa e de impostos sobre indústrias mais poluentes, talvez também possamos concordar em orientar esses gastos para a criação de empregos, ou para programas de transferência de renda para populações afetadas pelas medidas econômicas. Isso pode violar o princípio de Tinbergen. Mas, se ajudar a prevenir o aprofundamento das falhas sociais, econômicas e políticas, será importante.

Mais que tudo, no entanto, a economia está para trás no que diz respeito à comunicação com outras áreas. Resolver o problema do clima é algo complexo, que vai requerer intervenções econômicas complexas. Para que essas intervenções sejam bem desenhadas, vai ser necessária a colaboração de economistas com, por exemplo, cientistas naturais, para que as dinâmicas sobre os fluxos dos ecossistemas sejam bem capturadas. Também, será necessário que economistas conversem com especialistas do campo da psicologia, para que entendam qual poderá ser a reação comportamental das pessoas diante desses instrumentos, isto é, se de fato mudarão padrões de consumo e investimento da forma desejada. E muitos outros.

Ainda que existam áreas da economia multidisciplinares, como a economia ambiental ou a economia comportamental, o diálogo de economistas com outros cientistas ainda é muito limitado, e a economia tende a ser uma área fechada em si. Por isso é muito importante que economistas invistam também em divulgação científica, em saber explicar e discutir teoria econômica com não economistas. É fundamental que a nova geração de economistas não apenas reconheça a capacidade limitada da teoria econômica em ser relevante diante das mudanças climáticas, mas também faça um esforço para a integração de acadêmicos de outras áreas na criação de uma nova economia, adequada para entender, prever e solucionar o problema do clima.


¹ Este texto foi inspirado pelo artigo recente de Daron Acemoglu, “What climate requires of economics”, publicado no jornal Jordan Times.


COLUNA PUBLICADA NA FOLHA DE S. PAULO 

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Como mudanças climáticas afetam a economia enquanto campo de estudo?

Deveríamos ter prestado mais atenção quando Daron Acemoglu, um dos economistas mais influentes da atualidade, disse que as mudanças climáticas requerem “uma reconsideração fundamental de algumas das suposições mais fundamentais da economia”1. A verdade é que, quer os economistas estejam preparados, quer não, o problema do clima exige uma reestruturação brutal da economia como campo de pesquisa.

Primeiramente, a teoria econômica tende a focar em mudanças pequenas no mercado de bens e serviços no curto prazo. No cerne da análise econômica ainda está a mesma função de utilidade que um aluno de graduação aprende em um curso de microeconomia: uma curva que captura a relação de escolha entre consumo hoje ou no futuro. Trata-se de uma ferramenta que ajuda a determinar quanto consumo um tomador de decisão (por exemplo, uma autoridade governamental, mas também um indivíduo comum) deve estar disposto a sacrificar hoje para obter mais valor em algum momento no futuro (a depender do retorno de algum investimento), levando-se em conta que R$ 1 hoje terá menos valor que em, por exemplo, 10 anos, a depender de uma taxa de desconto. São várias as aplicações em que a curva de utilidade é útil, como para entender consumo individual, decisões de investimento e de gastos públicos, planejamento de política tributária e muito mais.

Porém, enquanto aplicar uma taxa de desconto para refletir esse efeito dinâmico de decisões intertemporais de consumo pode fazer sentido no curto prazo, será que é razoável tentar modelar decisões levando em conta um futuro que chegará em 100 anos? E mais, as mudanças climáticas são eventos brutais que vão forçar uma completa reestruturação dos padrões de consumo e vida, o que não pode ser capturado em uma curva de utilidade.

Nos últimos anos, de fato, tem havido avanços teóricos na incorporação de riscos e custos pensando em mudanças climáticas na macroeconomia, principalmente sob a liderança do ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2018, William Nordhaus. São vários os modelos que hoje relacionam economia neoclássica, ciclo do carbono, ciência climática e a previsão sobre impactos do clima, e assim permitem a ponderação de custos e benefícios de tomar medidas para retardar as mudanças climáticas.

Porém, esses custos e benefícios ainda são altamente hipotéticos, principalmente por que estamos falando de coisas que não têm um mercado, ou seja, não têm um valor real. Qual deve ser o valor atribuído a um projeto que pretende conservar uma floresta? Talvez até dê para tentar monetizar o benefício oriundo do carbono que será sequestrado pelas árvores, pensando que esse carbono pode virar créditos que serão comercializados em um mercado de créditos de carbono. Mas e o benefício da biodiversidade? É possível colocar um valor nisso? São perguntas ainda sem respostas, que limitam o quanto esses modelos são úteis para entender a realidade.

Outro ponto importante é que, na teoria econômica, há um princípio muito relevante, chamado de princípio de Tinbergen, em homenagem ao economista que o articulou. O princípio de Tinbergen estabelece que a melhor forma de neutralizar uma falha de mercado (ou especificamente uma externalidade negativa) é por meio de um instrumento de política desenhado especificamente para esse efeito. Isso implica que uma intervenção que não esteja centrada num problema bem definido único pode não se justificar. Pensando nos efeitos negativos da emissão de gases de efeito estufa, o princípio de Tinbergen sugere que a solução é formular um imposto sobre emissões de carbono e implementar esse imposto de forma consistente.

Não é difícil deduzir por que isso é insuficiente: se a mitigação do problema do clima requer uma transição rápida para tecnologias mais limpas, um imposto sobre o carbono terá de ser complementado com subsídios e outros incentivos para impulsionar a inovação e a implantação na direção certa. Mais que isso, sabemos que um imposto sobre carbono pode ter efeitos distorcionários, ou seja, afetar mais populações com renda mais baixa. É certo que essas populações tenham seu poder de consumo ainda mais reduzido, considerando que historicamente são as parcelas da população que menos contribuíram para os efeitos climáticos, e que serão provavelmente as mais afetadas pelo aumento das temperaturas (já que, ao contrário de grupos de maior poder econômico, têm uma capacidade limitada para investir em adaptação climática)?

A crise climática exige que consideremos ideias mais radicais. Se chegarmos a um consenso sobre a necessidade de investimentos fortes na transição para a energia limpa e de impostos sobre indústrias mais poluentes, talvez também possamos concordar em orientar esses gastos para a criação de empregos, ou para programas de transferência de renda para populações afetadas pelas medidas econômicas. Isso pode violar o princípio de Tinbergen. Mas, se ajudar a prevenir o aprofundamento das falhas sociais, econômicas e políticas, será importante.

Mais que tudo, no entanto, a economia está para trás no que diz respeito à comunicação com outras áreas. Resolver o problema do clima é algo complexo, que vai requerer intervenções econômicas complexas. Para que essas intervenções sejam bem desenhadas, vai ser necessária a colaboração de economistas com, por exemplo, cientistas naturais, para que as dinâmicas sobre os fluxos dos ecossistemas sejam bem capturadas. Também, será necessário que economistas conversem com especialistas do campo da psicologia, para que entendam qual poderá ser a reação comportamental das pessoas diante desses instrumentos, isto é, se de fato mudarão padrões de consumo e investimento da forma desejada. E muitos outros.

Ainda que existam áreas da economia multidisciplinares, como a economia ambiental ou a economia comportamental, o diálogo de economistas com outros cientistas ainda é muito limitado, e a economia tende a ser uma área fechada em si. Por isso é muito importante que economistas invistam também em divulgação científica, em saber explicar e discutir teoria econômica com não economistas. É fundamental que a nova geração de economistas não apenas reconheça a capacidade limitada da teoria econômica em ser relevante diante das mudanças climáticas, mas também faça um esforço para a integração de acadêmicos de outras áreas na criação de uma nova economia, adequada para entender, prever e solucionar o problema do clima.


¹ Este texto foi inspirado pelo artigo recente de Daron Acemoglu, “What climate requires of economics”, publicado no jornal Jordan Times.


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