A esquerda brasileira parou no tempo? Por quê?

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Há algumas décadas, a resposta era fácil: ser de esquerda era sinônimo de ser marxista e de se alinhar politicamente ao bloco soviético. Mas a opção por comando e controle —ou seja, por um mecanismo econômico que coloca o estado como o grande alocador dos recursos escassos da sociedade— fracassou. O muro caiu e a dicotomia ficou nublada.

O fato é: muitos dos elementos da política econômica, em geral, defendida pelo que se convencionou chamar de "esquerda brasileira" têm impactos nocivos para os mais pobres.

Essa ingenuidade em matéria de economia é extremamente prejudicial ao país. Precisamos de uma esquerda moderna e forte, com credibilidade para defender —e financiar!— a agenda social de que o país precisa e pela qual anseia.

Com uma economia do século 19, a esquerda brasileira terá muita dificuldade de implantar uma agenda social para o século 21.

Um recado aos que se colocam mais à esquerda: não há prosperidade sem propriedade privada, sem mercados. Aos ditos mais liberais: o contrário também não se verifica.

A existência de mercados não garante prosperidade e bem-estar social; muito menos equidade. É preciso mercado e estado funcionando —e que funcionem a contento.

Na academia internacional, isso parece já ter se tornado consenso.

Fora do Brasil, o economista mais à esquerda é aquele que coloca (1) mais ênfase nas diversas falhas do mecanismo de mercado; e (2) na necessidade de o estado comandar o processo de redistribuição de renda. O mais à direita se caracteriza por sempre duvidar da capacidade do governo de remediar as tais falhas —sua preocupação maior são as falhas do próprio governo.

Essas definições, com mais nuances, não são as que imperam no Brasil. A maior parte dos economistas ligados à esquerda brasileira está distante dessas discussões; boa parte deles não reconhecem aparatos metodológicos mais recentes, como o uso da estatística moderna na análise dos fenômenos sociais.

Essa recusa apenas atrapalha o diálogo e a troca de ideias. Há setores da esquerda que parecem reproduzir uma teimosia adolescente, lendo o mundo como uma luta entre o bem e o mal.

Abaixo, apontamos alguns itens que provocam grandes debates entre economistas de esquerda e liberais no país.

PROTEGER OU NÃO A INDÚSTRIA NACIONAL?

Favorecer alguns setores da indústria nacional não significa ajudar os mais pobres. É o caso de perguntarmos, por exemplo, o que o pobre ganha com os subsídios do governo à produção de navios. (Essa proteção, no fim das contas, força as empresas brasileiras a comprar navios mais caros!) Ou pode ser o caso, ainda, de perguntarmos o que qualquer brasileiro ganha com o BNDES despejando toneladas de dinheiro em empresas escolhidas, a taxas de juros subsidiadas —com os subsídios pagos pela sociedade.

UM POUCO DE INFLAÇÃO CAI BEM?

Sabemos que a inflação machuca sobretudo os desassistidos, além de impedir o desenvolvimento da economia como um todo. Sua raiz? Uma situação fiscal fora de controle. Portanto, é incompreensível que um governo que se diga de esquerda abra mão do rigor no trato fiscal.

Após 15 anos de déficit elevados e inflação alta, entre 1980 e meados da década de 1990, apenas focar os gastos não é suficiente.

QUEM SÃO OS 'AMIGOS DO REI'?

Desde 1530, o Brasil é a terra dos privilégios. Isso se acentuou a partir de 1808. Ser amigo do rei é ótimo negócio por aqui. Algumas grandes empresas não ganham concorrências melhorando seus processos produtivos, ou cortando custos, ou treinando o melhor seus funcionários: elas têm departamento de propinas.

Nesse quadro, ser funcionário d'El Rey também é bom: salários altos e estabilidade. Devemos lembrar quem banca isso tudo: a sociedade brasileira, o pobre anônimo. Uma boa pauta para os protestos dos que se dizem de esquerda seria exatamente os salários altos e os direitos irrestritos do funcionalismo.

VAMOS ABRIR A ECONOMIA AOS ESTRANGEIROS?

O Brasil é um país que produz bens intensivos com mão de obra barata. Significa que a abertura comercial (não financeira) aumentaria a renda dos mais pobres e reduziria a dos mais ricos. É importante deixar de imaginar que o comércio é algo "do mal".

CORAÇÃO DE ESQUERDA, CABEÇA DE ORTODOXO?

Imagine só uma espécie de Frankenstein que condense convicções de esquerda e preceitos liberais. O que ele advogaria? Banco Central independente; comitê de política fiscal; reforma administrativa; abertura comercial; facilidade para entrada e saída de empresas do mercado. E ampla rede de proteção social.

O que o diferenciaria do tradicional ortodoxo? Ele lutaria por um espaço saudável para desavenças e por uma agenda mais à esquerda, levando em consideração os pontos listados acima e somando outros. Entre eles:

1. Maior subsídio público à produção de energias limpas e transportes coletivos (não abaixar o IPVA);
2. Alíquotas mais elevadas para o Imposto de Renda dos mais ricos;
3. Cotas universitárias para alunos pobres oriundos do sistema de ensino público;
4. Mais recursos orçamentários para saúde e educação (mantendo o orçamento total em trajetória estável);
5. Incremento dos programas de transferência de renda, com focalização e condicionantes.

A QUE CONCLUSÃO CHEGAMOS?

A ação predominante da esquerda brasileira, infelizmente, vai em sentido contrário aos seus desejos; em resumo, pensa que é pró-pobre, mas, na prática, não tem sido. É importante que ela abandone conceitos e preconceitos. Que busque assemelhar-se, por exemplo, à esquerda nórdica. Para ter voz. Para fazer aquilo que, afinal, todos queremos: ajudar o Brasil a se desenvolver.

*Texto originalmente publicado na nossa Coluna da Folha, em 1 de novembro de 2016

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