Fim do Ciência sem Fronteiras: o que deu errado?

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Boas intenções não são suficientes para que um programa dê certo. Seria ótimo se todo o cidadão brasileiro recebesse um celular de última geração, por exemplo. Mas quanto isso custaria? Há alternativas melhores para o uso desse desses recursos?

Não só a concepção é crucial, mas também a implementação. Mesmo que um programa faça sentido no papel, se a execução for mal feita, muito dinheiro pode ser desperdiçado.

É o caso do recém-encerrado Ciência sem Fronteiras. Boas intenções: oferecer a alunos brasileiros estágios acadêmicos em universidades estrangeiras. Por que não? O público-alvo seria exposto a novas ideias, interagiria com a fronteira do conhecimento em sua área de estudo, melhoraria seu conhecimento de línguas estrangeiras. Todo esse conhecimento seria trazido e transmitido a outras pessoas aqui no Brasil. Isso sem contar a melhora na qualidade da mão de obra de alta qualificação, de que nosso país é tão carente.

Ainda é cedo para avaliar os reais benefícios do programa. Precisamos esperar um tempo para ter análises mais sérias, dado que se acredita que o efeito apareça no longo prazo. Mas há alguns indícios de que os resultados não são nada animadores.

Primeiro o lado dos custos.

A experiência não foi barata. De acordo com um artigo publicado na Revista da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), entre 2011 e 2016 foram concedidas 104 mil bolsas, a grande maioria para alunos de graduação de universidades brasileiras, para estágios de curta duração em escolas no exterior. A conta total passou dos 13 bilhões de reais.

A fim de comparação: uma bolsa para um estudante de graduação custava para o governo em torno de 100 mil reais na média. Esse mesmo dinheiro poderia ser utilizado para pagar a merenda escolar de um pouco mais de 1060 alunos de ensino básico durante um ano. Você pode consultar os valores de auxílios e bolsas por estudantes do Ciência Sem Fronteiras clicando aqui. 

O câmbio também ajudou a tornar a conta salgada. Do início ao fim do programa, a moeda brasileira perdeu bastante valor em relação às demais moedas, principalmente o dólar, o euro e a libra esterlina, moedas dos países que mais receberam estudantes de graduação nesses anos: Estados Unidos, Reino Unido e o resto da Europa. Se, por exemplo, o valor das taxas escolares de um aluno nos Estados Unidos permanece fixo em dólares, mas o real perde valor frente à moeda americana, serão necessários mais reais para pagar por esse gasto. Isso pressiona o orçamento do governo, pois os impostos são coletados em reais, e não em dólares.

O programa teve ainda uma série de problemas de desenho e implementação. Isso diminui os potenciais benefícios, fomentando o desperdício de recursos públicos (que vêm dos impostos que pagamos).

Em primeiro lugar, não havia muita cobrança de resultados para os bolsistas. O incentivo a aprender e fazer esforço não é muito forte nessa situação. Por que não aproveitar o tempo curto no exterior para conhecer a cultura local e fazer um pouco turismo? Por isso, o programa ganhou o infame apelido de Turismo sem Fronteiras.

A falta de incentivos corretos para o bom uso do dinheiro público provavelmente gerou muito desperdício nesse sentido.

Há indícios ainda de que boa parte dos alunos brasileiros não estava bem preparada para um bom aproveitamento do estágio. Casos de desconhecimento de língua estrangeira eram muito comuns. Isso potencializa ainda mais o mau uso dos recursos empregados no programa.

Além disso, o retorno obtido pelo envio de alunos de graduação para cursos no exterior não parece muito alto. A diferença entre um curso de graduação em uma excelente universidade no exterior e um curso de graduação em uma boa universidade brasileira não é muito grande. Na área de Economia, por exemplo, frequentemente utiliza-se o mesmo material, aqui e lá fora, nos cursos de formação básica.

Mesmo o ganho em termos de recursos humanos (professores) não é muito elevado. Universidades americanas, por exemplo, frequentemente recorrem a professores externos a seus corpos docentes para ministrar aulas de graduação. Esses professores estão pouco engajados em pesquisa, em geral especializando-se em ensino. Ou seja, as chances de interação com expoentes da área (que trabalham na fronteira do conhecimento) não são muito elevadas quando se enviam alunos de graduação para o exterior. Se esse é o objetivo, faria muito mais sentido utilizar recursos em alunos de pós-graduação.

A má gestão ainda contribuiu para elevar o custo do programa. Poderiam ter sido tentados outros modelos, como, parcerias com universidades no exterior, no espírito de programas de intercâmbio: não só mandaríamos alunos para fora, como também receberíamos estudantes de outros países. O fato de nossas universidades públicas serem gratuitas poderia ser usado para negociar o abatimento de mensalidades e taxas no exterior, e ainda teríamos o benefício extra de promover o contato entre alunos brasileiros e estrangeiros.

Mas nada disso foi feito. O resultado é que se gastou uma dinheirama com taxas e mensalidades, configurando uma transferência de recursos do contribuinte brasileiro para universidades estrangeiras. Do total de cerca de 13 bilhões de reais gastos no âmbito do programa, quase 6 bilhões foram direcionados a taxas e mensalidades.

Como dito no início do texto, boas intenções não são suficientes. Na verdade podem até atrapalhar, caso gerem desperdício de recursos – que poderiam ser usados em coisas mais prioritárias, com maior retorno social.

(Colaborou Bruno Sanches Imaizumi)

 
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