Uma plataforma que vai te ajudar a entender um pouco mais de economia.

							Ficha técnica
Nome do trabalho
Essays in Monetary Policy with Risky Assets (original)
Ensaios de Política Monetária com Ativos Arriscados (tradução)

Autor 
Eduardo Amaral, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio)

Link para Lattes
Lattes: http://lattes.cnpq.br/3789347939629928.
Site pessoal: https://sites.google.com/site/edugca/.

Orientador
Carlos Viana de Carvalho

Local de publicação do trabalho
Tese (doutorado). Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Departamento de Economia, 2021.

Link para o original
https://doi.org/10.17771/PUCRio.acad.56830

Quem é o autor

Eduardo Amaral é assessor pleno do Banco Central do Brasil. Tem graduação em Engenharia de Produção pela UFRJ e doutorado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). É vencedor do prêmio Haralambos Simeonidis de melhor tese de doutorado de 2022. Sua pesquisa se concentra nas áreas de Economia Monetária e Macroeconomia.

Abaixo, Eduardo explica suas pesquisas, trabalhos e conclusões.

A que pergunta essa pesquisa responde?
O que explica o nível persistentemente elevado da Selic, a taxa básica de juros no Brasil?
Eu mostro que essa pergunta se conecta a outra, ainda pouco explorada pelos pesquisadores: e se a hipótese convencional de que a política monetária seja conduzida com ativos livres de risco – por meio de operações envolvendo títulos financeiros sem risco de calote, por exemplo – não se aplicar a economias emergentes, vistas pelos investidores como arriscadas?
Essas duas perguntas são respondidas em conjunto nos dois primeiros artigos que compõem a tese.

Qual a relevância desse tema? Por que é importante que as pessoas saibam mais sobre ele?
As altas taxas de juros praticadas no Brasil após o Plano Real são objeto de constante questionamento por parte da população brasileira e, em especial, dos economistas, que até hoje não deram uma resposta satisfatória ao problema.
Comparado a outros países, o Brasil pratica taxas básicas de juros que se destacam não só por serem altas, mas também pela sua elasticidade em relação à inflação. Ou seja, quando a inflação sobe, o Banco Central brasileiro sobe os juros ainda mais do que muitos outros bancos centrais para trazer a inflação para a meta.
Essa política, entretanto, tem sido compatível com um histórico relativamente bem-sucedido do regime de metas para inflação no país.
A inflação, de fato, tende a convergir para a meta após alguns trimestres, o que sugere que a taxa de juros no Brasil, quando o efeito de todos os choques sobre a economia se dissipa (a taxa neutra), é realmente elevada comparada à de outros países.
O motivo disso, o porquê, é explorado nos dois primeiros artigos da tese, nos quais eu exploro o impacto dos instrumentos de política monetária, digamos, das operações compromissadas com títulos públicos que entram no cálculo da taxa Selic, se percebidos como arriscados – contaminados pelo risco fiscal, por exemplo – sobre a condução da política monetária.

Quais as conclusões do estudo?
O primeiro artigo da tese aponta que, quando o ativo de política monetária é percebido como arriscado, a taxa neutra de juros é mais elevada do que no caso tradicional em que se pressupõe que ele é livre de risco.
Isso ocorre porque, além de compensar o investidor por postergar o seu consumo, é preciso compensar o risco que o investidor corre de não receber o retorno prometido pelo Banco Central.
Esse risco, naturalmente, não decorre de uma incapacidade operacional da instituição em depositar na data do vencimento da operação o valor escritural prometido na conta do investidor. A capacidade de “imprimir dinheiro” é ilimitada, como demonstram os países que sofrem de hiperinflação.
O risco decorre justamente da dificuldade do governo de honrar seus compromissos, no presente e no futuro, sem precisar recorrer a esse expediente.
A percepção dos investidores dessa capacidade é o limite fiscal. Afinal, os gastos do governo, inclusive com juros, precisam ser financiados de alguma forma. Quando ele não consegue arrecadar o suficiente por meio de tributos e outras receitas, ele pega emprestado emitindo dívida, a qual ele espera será adquirida pelos investidores mediante o pagamento de uma taxa de juros.
Na medida em que o governo se aproxima do seu limite fiscal, a promessa de que ele vai honrar seus compromissos sem emitir moeda torna-se menos crível, o que faz com que os investidores demandem taxas de juros cada vez mais altas como compensação por esse risco.
A lógica dos investidores se estrutura sobre a avaliação de que a emissão de moeda, por si só, não gera recursos reais novos de forma sustentável. Assim, quando o governo honra suas dívidas com emissão de moeda, o valor nominal recebido pelo investidor quando do vencimento da dívida adquire menos recursos reais do que o esperado anteriormente.
Essa lógica tem um complemento. Alternativamente à emissão de moeda, o governo pode recorrer a um expediente pouco utilizado, mas que, no Brasil, deixou marcas profundas: o calote em moeda doméstica. Em 1990, no primeiro dia do governo Collor, a equipe econômica que acabara de tomar posse anunciou o confisco imediato dos ativos financeiros, inclusive das operações de um dia, chamadas de overnight.
Esse confisco se prolongou por até 18 meses e provocou uma enorme recessão. No início, a inflação cedeu, mas em seguida voltou com força. A inflação corrói o valor real dos ativos, tal como um calote parcial.
O investidor que na véspera do Plano Collor acreditasse que havia alguma probabilidade positiva, mas não uma certeza, de ter seus investimentos indisponibilizados cobraria uma taxa de juros mais alta para emprestar para o governo ou para o Banco Central, dado que o último está sempre sob algum grau de ingerência do governo.
Do ponto de vista da política monetária, um banco central comprometido em entregar a inflação na meta precisa, portanto, compensar o investidor por esse risco, caso contrário ele erra a taxa neutra e com isso pratica uma política monetária involuntariamente frouxa, deixando a inflação acima da meta.
Essa necessidade de reagir às oscilações do prêmio de risco implica também que o banco central precisa ser mais conservador, no sentido de reagir com mais intensidade aos desvios da inflação esperada em relação à meta, em comparação ao banco central de uma economia cujo governo é considerado confiável.
É um resultado matemático que advém do fato de que a promessa de entregar 1 ponto percentual de juros no futuro, livre de risco, equivale a um valor menor quando se leva em consideração o risco de um calote ou de uma política monetária mais tolerante com a inflação.
Sob arbitragem e neutralidade (ou aversão) ao risco, é necessário que o banco central suba ainda mais os juros para obter o mesmo efeito sobre a economia real, refletindo o que se chama de baixa potência da política monetária. Isso explicaria, ao menos em parte, porque os juros básicos são mais altos no Brasil do que em outros países.

O que há de novo na sua pesquisa? (Método, conclusão, recorte etc.)
A novidade que a tese traz é a formalização teórica e a validação empírica de uma percepção disseminada entre muitos economistas, mas que ainda não havia sido razoavelmente demonstrada em um modelo de equilíbrio geral tal como os utilizados pelos bancos centrais contemporâneos: o elo entre o risco fiscal e a política monetária.
Embora seja comum associar o aumento da preocupação com as contas públicas a um aumento da taxa de juros, o canal que muita gente tem em mente é o de um aumento da demanda do governo aquecendo a economia e provocando inflação, ao que o banco central reagiria finalmente elevando os juros.
Entretanto, o que a minha pesquisa procura demonstrar é que o risco fiscal afeta a taxa neutra de juros, além da potência da política monetária, e isso muda a reação exigida do banco central para trazer a inflação para a meta.
Esse canal de transmissão do risco fiscal para a taxa neutra de juros é uma novidade apresentada nos dois primeiros artigos da tese.

Qual foi a metodologia empregada e dados utilizados?
No primeiro artigo, a pesquisa expande o modelo monetário básico sobre o qual a teoria novo-keynesiana se desenvolve de modo a incorporar risco no ativo de política monetária. A partir dos resultados teóricos obtidos, verifica-se a aderência das previsões do modelo em relação a dados empíricos de variáveis macroeconômicas de diferentes países coletados das bases International Financial Statistics (IFS) e World Economic Outlook (WEO), ambas do Fundo Monetário Internacional (FMI).

No segundo artigo, a pesquisa incorpora a modificação do primeiro artigo em um modelo novo-keynesiano de médio porte. O modelo é calibrado e parcialmente estimado utilizando séries temporais de variáveis macroeconômicas da economia brasileira de diferentes fontes, incluindo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Banco Central do Brasil e o FMI.

Conte um pouco: quais foram os principais desafios encontrados? Como você os superou e qual a sensação em relação a esses desafios e à conclusão da sua pesquisa?
Os desafios de escrever uma tese de doutorado são imensos. É preciso criar algo novo, que ninguém tenha feito antes, e expandir a fronteira do conhecimento em alguma direção. Isso requer muita maturidade de pesquisa, algo que eu não tinha quando comecei essa jornada.
Como optei por migrar do mestrado para o doutorado após o primeiro ano de matérias na PUC-Rio, o chamado doutorado direto, um caminho mais próximo ao dos programas de Ph.D. nos EUA, eu não tinha nem sequer a experiência de ter escrito uma dissertação de mestrado.
A minha ideia era estimar a taxa neutra de juros do Brasil e entender por que ela parece ser tão alta. Já na primeira reunião com meu orientador, Carlos Viana de Carvalho, ele recomendou que eu olhasse para risco.
Passei um bom tempo explorando diferentes literaturas, acreditando com entusiasmo, no início, que em cada uma delas havia encontrado a base de um futuro artigo da tese, até que aparecia um entrave, alguma limitação que, por mais que eu quebrasse a cabeça, não conseguia resolver. Então, precisava buscar outra literatura. Eu me sentia uma bola de bilhar sendo jogada de um canto para outro da mesa. Naturalmente, é um processo bastante frustrante.
Quando voltei do doutorado-sanduíche na London School of Economics (LSE), onde estive sob a supervisão do professor Ricardo Reis, tinha uma pasta cheia de projetos incompletos, nenhum em estágio que servisse para a tese. E o prazo do doutorado se extinguindo, é claro.
Foi então que eu resolvi mudar a abordagem e, em vez de insistir em começar já de um modelo mais complicado, finalmente acatei uma sugestão do meu orientador, a de partir de um modelo mais simples. Fui atrás dos primeiros capítulos do livro Interest and Prices: Foundations of a Theory of Monetary Policy, de Michael Woodford, em que ele formaliza a ideia de taxa neutra do Knut Wicksell, e adicionei risco no ativo de política monetária. Foi como se um portal tivesse se aberto, e, de repente, tudo passou a fluir melhor. Havia resultados interessantes, como o de que o risco afetava tanto o nível como a potência da política monetária, que acabaram resultando no primeiro artigo.

O segundo artigo foi consequência. Uma vez entendido como introduzir risco na taxa neutra, partimos para um modelo de médio porte, mais próximo dos que realmente são utilizados pelos bancos centrais. Aqui, todos aqueles rincões da literatura que eu havia explorado passaram a se conectar. Enquanto eu me sentia uma bola de bilhar em um passeio aleatório, eu estava, sem ter muita consciência disso, mapeando o território da fronteira do conhecimento, como esses robôs aspiradores mais modernos fazem na nossa casa. Alguns trabalhos que havia lido anteriormente foram especialmente importantes. Entre eles, a pesquisa de limites fiscais de Huixin Bi (FED Kansas City) e de Eric Leeper (University of Virginia), além do método de solução de mudança endógena de regimes de Junior Maih (Norges Bank).

O terceiro artigo não tem relação direta com os dois primeiros. Ele surgiu de uma conversa que eu tive com o meu orientador em que apresentei para ele o artigo de Peter Rupert e Roman Sustek em que eles questionam o canal de taxa de juros real do modelo novo-keynesiano. Carlos sugeriu mudar a especificação da regra de taxa de juros, incluindo suavização, e, com isso, consegui demonstrar que o canal era restabelecido.

Para quais públicos os resultados deste estudo podem ser mais relevantes?
Essa tese pode ser relevante para formuladores de política monetária, acadêmicos, investidores e economistas interessados em entender as razões que diferenciam o nível das taxas neutras de juros entre os países e o funcionamento do modelo novo-keynesiano.
Os resultados indicam que convencer os investidores da importância da sustentabilidade das contas públicas é fundamental para a ancoragem das taxas neutras em níveis mais baixos, e que o Banco Central deve incorporar o prêmio de risco fiscal na sua decisão de taxa básica de juros.

Quais as palavras-chave do estudo?
Política monetária; ativo de política arriscado; taxa natural de juros; limite fiscal; mudança endógena de regime.

Principais referências do trabalho.
Woodford, Michael. 2003. Interest and Prices: Foundations of a Theory of Monetary Policy. 1st ed., Princeton, USA: Princeton University Press.

Bi, Huixin, Eric M Leeper, and Campbell Leith. 2018. Sovereign default and monetary policy tradeoffs. International Journal of Central Banking, 14(3): 289–324.

Bi, Huixin. 2012. Sovereign default risk premia, fiscal limits, and fiscal policy. European Economic Review, 56(3): 389–410.

Rupert, Peter, and Roman Šustek. 2019. On the mechanics of New-Keynesian models. Journal of Monetary Economics, 102: 53–69.

 

Para ficar por dentro do que rola no Por Quê?clique aqui e assine a nossa Newsletter.


Siga a gente no Facebook e Twitter!
Inscreva-se no nosso canal no YouTube!
Curta as nossas fotos no Instagram!


O que explica o nível persistentemente alto da Selic? | Percurso Acadêmico

Ficha técnica
Nome do trabalho
Essays in Monetary Policy with Risky Assets (original)
Ensaios de Política Monetária com Ativos Arriscados (tradução)

Autor 
Eduardo Amaral, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio)

Link para Lattes
Lattes: http://lattes.cnpq.br/3789347939629928.
Site pessoal: https://sites.google.com/site/edugca/.

Orientador
Carlos Viana de Carvalho

Local de publicação do trabalho
Tese (doutorado). Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Departamento de Economia, 2021.

Link para o original
https://doi.org/10.17771/PUCRio.acad.56830

Quem é o autor

Eduardo Amaral é assessor pleno do Banco Central do Brasil. Tem graduação em Engenharia de Produção pela UFRJ e doutorado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). É vencedor do prêmio Haralambos Simeonidis de melhor tese de doutorado de 2022. Sua pesquisa se concentra nas áreas de Economia Monetária e Macroeconomia.

Abaixo, Eduardo explica suas pesquisas, trabalhos e conclusões.

A que pergunta essa pesquisa responde?
O que explica o nível persistentemente elevado da Selic, a taxa básica de juros no Brasil?
Eu mostro que essa pergunta se conecta a outra, ainda pouco explorada pelos pesquisadores: e se a hipótese convencional de que a política monetária seja conduzida com ativos livres de risco – por meio de operações envolvendo títulos financeiros sem risco de calote, por exemplo – não se aplicar a economias emergentes, vistas pelos investidores como arriscadas?
Essas duas perguntas são respondidas em conjunto nos dois primeiros artigos que compõem a tese.

Qual a relevância desse tema? Por que é importante que as pessoas saibam mais sobre ele?
As altas taxas de juros praticadas no Brasil após o Plano Real são objeto de constante questionamento por parte da população brasileira e, em especial, dos economistas, que até hoje não deram uma resposta satisfatória ao problema.
Comparado a outros países, o Brasil pratica taxas básicas de juros que se destacam não só por serem altas, mas também pela sua elasticidade em relação à inflação. Ou seja, quando a inflação sobe, o Banco Central brasileiro sobe os juros ainda mais do que muitos outros bancos centrais para trazer a inflação para a meta.
Essa política, entretanto, tem sido compatível com um histórico relativamente bem-sucedido do regime de metas para inflação no país.
A inflação, de fato, tende a convergir para a meta após alguns trimestres, o que sugere que a taxa de juros no Brasil, quando o efeito de todos os choques sobre a economia se dissipa (a taxa neutra), é realmente elevada comparada à de outros países.
O motivo disso, o porquê, é explorado nos dois primeiros artigos da tese, nos quais eu exploro o impacto dos instrumentos de política monetária, digamos, das operações compromissadas com títulos públicos que entram no cálculo da taxa Selic, se percebidos como arriscados – contaminados pelo risco fiscal, por exemplo – sobre a condução da política monetária.

Quais as conclusões do estudo?
O primeiro artigo da tese aponta que, quando o ativo de política monetária é percebido como arriscado, a taxa neutra de juros é mais elevada do que no caso tradicional em que se pressupõe que ele é livre de risco.
Isso ocorre porque, além de compensar o investidor por postergar o seu consumo, é preciso compensar o risco que o investidor corre de não receber o retorno prometido pelo Banco Central.
Esse risco, naturalmente, não decorre de uma incapacidade operacional da instituição em depositar na data do vencimento da operação o valor escritural prometido na conta do investidor. A capacidade de “imprimir dinheiro” é ilimitada, como demonstram os países que sofrem de hiperinflação.
O risco decorre justamente da dificuldade do governo de honrar seus compromissos, no presente e no futuro, sem precisar recorrer a esse expediente.
A percepção dos investidores dessa capacidade é o limite fiscal. Afinal, os gastos do governo, inclusive com juros, precisam ser financiados de alguma forma. Quando ele não consegue arrecadar o suficiente por meio de tributos e outras receitas, ele pega emprestado emitindo dívida, a qual ele espera será adquirida pelos investidores mediante o pagamento de uma taxa de juros.
Na medida em que o governo se aproxima do seu limite fiscal, a promessa de que ele vai honrar seus compromissos sem emitir moeda torna-se menos crível, o que faz com que os investidores demandem taxas de juros cada vez mais altas como compensação por esse risco.
A lógica dos investidores se estrutura sobre a avaliação de que a emissão de moeda, por si só, não gera recursos reais novos de forma sustentável. Assim, quando o governo honra suas dívidas com emissão de moeda, o valor nominal recebido pelo investidor quando do vencimento da dívida adquire menos recursos reais do que o esperado anteriormente.
Essa lógica tem um complemento. Alternativamente à emissão de moeda, o governo pode recorrer a um expediente pouco utilizado, mas que, no Brasil, deixou marcas profundas: o calote em moeda doméstica. Em 1990, no primeiro dia do governo Collor, a equipe econômica que acabara de tomar posse anunciou o confisco imediato dos ativos financeiros, inclusive das operações de um dia, chamadas de overnight.
Esse confisco se prolongou por até 18 meses e provocou uma enorme recessão. No início, a inflação cedeu, mas em seguida voltou com força. A inflação corrói o valor real dos ativos, tal como um calote parcial.
O investidor que na véspera do Plano Collor acreditasse que havia alguma probabilidade positiva, mas não uma certeza, de ter seus investimentos indisponibilizados cobraria uma taxa de juros mais alta para emprestar para o governo ou para o Banco Central, dado que o último está sempre sob algum grau de ingerência do governo.
Do ponto de vista da política monetária, um banco central comprometido em entregar a inflação na meta precisa, portanto, compensar o investidor por esse risco, caso contrário ele erra a taxa neutra e com isso pratica uma política monetária involuntariamente frouxa, deixando a inflação acima da meta.
Essa necessidade de reagir às oscilações do prêmio de risco implica também que o banco central precisa ser mais conservador, no sentido de reagir com mais intensidade aos desvios da inflação esperada em relação à meta, em comparação ao banco central de uma economia cujo governo é considerado confiável.
É um resultado matemático que advém do fato de que a promessa de entregar 1 ponto percentual de juros no futuro, livre de risco, equivale a um valor menor quando se leva em consideração o risco de um calote ou de uma política monetária mais tolerante com a inflação.
Sob arbitragem e neutralidade (ou aversão) ao risco, é necessário que o banco central suba ainda mais os juros para obter o mesmo efeito sobre a economia real, refletindo o que se chama de baixa potência da política monetária. Isso explicaria, ao menos em parte, porque os juros básicos são mais altos no Brasil do que em outros países.

O que há de novo na sua pesquisa? (Método, conclusão, recorte etc.)
A novidade que a tese traz é a formalização teórica e a validação empírica de uma percepção disseminada entre muitos economistas, mas que ainda não havia sido razoavelmente demonstrada em um modelo de equilíbrio geral tal como os utilizados pelos bancos centrais contemporâneos: o elo entre o risco fiscal e a política monetária.
Embora seja comum associar o aumento da preocupação com as contas públicas a um aumento da taxa de juros, o canal que muita gente tem em mente é o de um aumento da demanda do governo aquecendo a economia e provocando inflação, ao que o banco central reagiria finalmente elevando os juros.
Entretanto, o que a minha pesquisa procura demonstrar é que o risco fiscal afeta a taxa neutra de juros, além da potência da política monetária, e isso muda a reação exigida do banco central para trazer a inflação para a meta.
Esse canal de transmissão do risco fiscal para a taxa neutra de juros é uma novidade apresentada nos dois primeiros artigos da tese.

Qual foi a metodologia empregada e dados utilizados?
No primeiro artigo, a pesquisa expande o modelo monetário básico sobre o qual a teoria novo-keynesiana se desenvolve de modo a incorporar risco no ativo de política monetária. A partir dos resultados teóricos obtidos, verifica-se a aderência das previsões do modelo em relação a dados empíricos de variáveis macroeconômicas de diferentes países coletados das bases International Financial Statistics (IFS) e World Economic Outlook (WEO), ambas do Fundo Monetário Internacional (FMI).

No segundo artigo, a pesquisa incorpora a modificação do primeiro artigo em um modelo novo-keynesiano de médio porte. O modelo é calibrado e parcialmente estimado utilizando séries temporais de variáveis macroeconômicas da economia brasileira de diferentes fontes, incluindo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Banco Central do Brasil e o FMI.

Conte um pouco: quais foram os principais desafios encontrados? Como você os superou e qual a sensação em relação a esses desafios e à conclusão da sua pesquisa?
Os desafios de escrever uma tese de doutorado são imensos. É preciso criar algo novo, que ninguém tenha feito antes, e expandir a fronteira do conhecimento em alguma direção. Isso requer muita maturidade de pesquisa, algo que eu não tinha quando comecei essa jornada.
Como optei por migrar do mestrado para o doutorado após o primeiro ano de matérias na PUC-Rio, o chamado doutorado direto, um caminho mais próximo ao dos programas de Ph.D. nos EUA, eu não tinha nem sequer a experiência de ter escrito uma dissertação de mestrado.
A minha ideia era estimar a taxa neutra de juros do Brasil e entender por que ela parece ser tão alta. Já na primeira reunião com meu orientador, Carlos Viana de Carvalho, ele recomendou que eu olhasse para risco.
Passei um bom tempo explorando diferentes literaturas, acreditando com entusiasmo, no início, que em cada uma delas havia encontrado a base de um futuro artigo da tese, até que aparecia um entrave, alguma limitação que, por mais que eu quebrasse a cabeça, não conseguia resolver. Então, precisava buscar outra literatura. Eu me sentia uma bola de bilhar sendo jogada de um canto para outro da mesa. Naturalmente, é um processo bastante frustrante.
Quando voltei do doutorado-sanduíche na London School of Economics (LSE), onde estive sob a supervisão do professor Ricardo Reis, tinha uma pasta cheia de projetos incompletos, nenhum em estágio que servisse para a tese. E o prazo do doutorado se extinguindo, é claro.
Foi então que eu resolvi mudar a abordagem e, em vez de insistir em começar já de um modelo mais complicado, finalmente acatei uma sugestão do meu orientador, a de partir de um modelo mais simples. Fui atrás dos primeiros capítulos do livro Interest and Prices: Foundations of a Theory of Monetary Policy, de Michael Woodford, em que ele formaliza a ideia de taxa neutra do Knut Wicksell, e adicionei risco no ativo de política monetária. Foi como se um portal tivesse se aberto, e, de repente, tudo passou a fluir melhor. Havia resultados interessantes, como o de que o risco afetava tanto o nível como a potência da política monetária, que acabaram resultando no primeiro artigo.

O segundo artigo foi consequência. Uma vez entendido como introduzir risco na taxa neutra, partimos para um modelo de médio porte, mais próximo dos que realmente são utilizados pelos bancos centrais. Aqui, todos aqueles rincões da literatura que eu havia explorado passaram a se conectar. Enquanto eu me sentia uma bola de bilhar em um passeio aleatório, eu estava, sem ter muita consciência disso, mapeando o território da fronteira do conhecimento, como esses robôs aspiradores mais modernos fazem na nossa casa. Alguns trabalhos que havia lido anteriormente foram especialmente importantes. Entre eles, a pesquisa de limites fiscais de Huixin Bi (FED Kansas City) e de Eric Leeper (University of Virginia), além do método de solução de mudança endógena de regimes de Junior Maih (Norges Bank).

O terceiro artigo não tem relação direta com os dois primeiros. Ele surgiu de uma conversa que eu tive com o meu orientador em que apresentei para ele o artigo de Peter Rupert e Roman Sustek em que eles questionam o canal de taxa de juros real do modelo novo-keynesiano. Carlos sugeriu mudar a especificação da regra de taxa de juros, incluindo suavização, e, com isso, consegui demonstrar que o canal era restabelecido.

Para quais públicos os resultados deste estudo podem ser mais relevantes?
Essa tese pode ser relevante para formuladores de política monetária, acadêmicos, investidores e economistas interessados em entender as razões que diferenciam o nível das taxas neutras de juros entre os países e o funcionamento do modelo novo-keynesiano.
Os resultados indicam que convencer os investidores da importância da sustentabilidade das contas públicas é fundamental para a ancoragem das taxas neutras em níveis mais baixos, e que o Banco Central deve incorporar o prêmio de risco fiscal na sua decisão de taxa básica de juros.

Quais as palavras-chave do estudo?
Política monetária; ativo de política arriscado; taxa natural de juros; limite fiscal; mudança endógena de regime.

Principais referências do trabalho.
Woodford, Michael. 2003. Interest and Prices: Foundations of a Theory of Monetary Policy. 1st ed., Princeton, USA: Princeton University Press.

Bi, Huixin, Eric M Leeper, and Campbell Leith. 2018. Sovereign default and monetary policy tradeoffs. International Journal of Central Banking, 14(3): 289–324.

Bi, Huixin. 2012. Sovereign default risk premia, fiscal limits, and fiscal policy. European Economic Review, 56(3): 389–410.

Rupert, Peter, and Roman Šustek. 2019. On the mechanics of New-Keynesian models. Journal of Monetary Economics, 102: 53–69.

 

Para ficar por dentro do que rola no Por Quê?clique aqui e assine a nossa Newsletter.

Siga a gente no Facebook e Twitter!
Inscreva-se no nosso canal no YouTube!
Curta as nossas fotos no Instagram!

O que você achou desse texto?

*Não é necessário cadastro.

Avaliação de quem leu:

Avalie esse texto Não é necessário cadastro

A plataforma Por Quê?Economês em bom português nasceu em 2015, com o objetivo de explicar conceitos básicos de economia e tornar o noticiário econômico acessível ao público não especializado. Acreditamos que o raciocínio econômico é essencial para a compreensão da realidade que nos cerca.

Iniciativa

Bei editora
Usamos cookies por vários motivos, como manter o site do PQ? confiável ​​e seguro, personalizar conteúdo e anúncios,
fornecer recursos de mídia social e analisar como o site é usado. Para maiores informações veja nossa Política de Privacidade.