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														Todo mundo escuta que a natureza não tem preço. Afinal, se paramos para pensar em todos os benefícios dos serviços ecossistêmicos, parece mesmo que o valor do meio ambiente é incalculável. Mas, como economistas, estamos o tempo todo querendo dar um valor monetário para seus recursos. Em economês, isso se chama “environmental valuation” ou "valoração ambiental".

Talvez não seja ético querer atribuir cifrões para serviços ecossistêmicos. E mais, talvez fazer isso seja reduzir a natureza ao papel de servir o homem, ou, em outras palavras, ter uma visão antropocêntrica do mundo. Individualmente, não somos capazes de ter compreensão sobre o valor para biodiversidade, ar limpo, regulação do clima etc.  

Ainda assim, vamos fazer isso. Para além da discussão ética, dar um valor de mercado para a natureza é altamente necessário. E esse preço, em muitas situações, precisa ser monetário.

Vamos imaginar que o governo de uma cidade pequena tenha um recurso gerado da arrecadação de impostos, e precisa decidir como vai alocá-lo no orçamento. Será que é melhor usar esse dinheiro para dar crédito a pequenos empreendedores na cidade e, com isso, estimular a economia; para a construção de uma nova escola; ou para o reflorestamento de uma área abandonada?

É difícil comparar essas coisas. Primero porque, enquanto conseguimos imaginar qual pode ser o retorno econômico de crédito para empreendedorismo comparando, por exemplo, com o aumento do PIB resultante de um programa análogo em um município vizinho, ou de se investir em educação – olhando para um possível aumento da expectativa de salário dos alunos que concluem seus estudos –, não temos ideia do valor gerado pelas novas árvores.  

Claro, sabemos que elas vão sequestrar carbono e contribuir para a mitigação das mudanças climáticas. Sabemos também que elas podem ser muito apreciadas pelos moradores locais, que vão desfrutar de acesso mais fácil a um parque. Se essa área for entre uma estrada e uma zona residencial, podemos imaginar também que ela traga o benefício da redução da poluição auditiva na cidade. Mas apenas listar os benefícios da floresta não é o suficiente para torná-la comparável com as outras alternativas. Dar um valor monetário para esses benefícios é uma forma de fazer isso. Assim, o governo pode saber qual é o benefício de cada uma das alternativas, compará-lo com seu custo, e estão escolher a alternativa de alocação mais custo-efetiva – aquela que vai gerar o maior benefício pelo menor custo.

Economia é o estudo da alocação dos recursos escassos, para fins externos. A valoração pode ser entendida como uma das ferramentas da economia, usada para tornar fins externos comparáveis quando falamos de recursos naturais e, com isso, decidir como alocar esses recursos da melhor forma.

Pode parecer contraditório, mas dar um preço para o meio ambiente pode justamente auxiliar em sua proteção, manutenção e sustentabilidade. Se existe um valor monetário, comercializado, de mercado, para uma floresta em pé, vai haver um incentivo econômico contrário ao desmatamento. Se existe um custo atrelado com a poluição, empresas terão incentivos econômicos para emitir menos poluentes. 

Dar um preço para a natureza é, também, uma forma de gerar renda para preservação. De remunerar quem auxilia nisso, cobrar de quem polui e tornar mais rentável preservar o meio ambiente do que explorá-lo. Isso pode contribuir para gerar empregos e trazer crescimento econômico, como comentamos em textos anteriores do Por Quê?.

Já falamos sobre vários instrumentos econômicos que têm essa lógica por trás, como impostos, subsídios e créditos de carbono. A pergunta agora é: como economistas vão decidir esse preço? Como vão falar que valor deve ser dado para um imposto sob carros para diminuir poluição? Ou quanto deve ser dado como pagamento para fazendeiros que plantarem árvores? Ou quanto vale um crédito de carbono? 

Responder a essas perguntas não é uma tarefa fácil, e envolve, muitas vezes, o uso de diversas técnicas diferentes de valoração, como análise de custo de benefício, cálculo de custos de viagem (travel costs), modelos de preços hedônicos (stated preferences), entre outros. Nesse mês, a Plataforma Intergovernamental de Política Científica sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IBES) está lançando um relatório sobre valoração da biodiversidade, com um capítulo inteiramente dedicado aos diferentes métodos utilizados para isso. Normalmente, a escolha de qual utilizar depende de vários fatores, como o tipo de ativo ambiental de que estamos falando, o tipo de instrumento, o tipo de mercado, o local etc. E nem sempre há consenso quanto aos métodos, principalmente entre economistas e pesquisadores de outras áreas.

Além disso, é importante lembrar que muitos métodos em geral estão subestimando o valor dos recursos naturais, já que dificilmente levam em conta benefícios não tangíveis, como por exemplo o valor espiritual de uma floresta para uma comunidade indígena.

Ainda assim, alguma forma de valoração ambiental é preferível a não dar esse preço e, com isso, fazer com que ativos ambientais sejam preteridos em relação a alternativas com ganhos econômicos contabilizados. O Brasil, por exemplo, conta com uma enorme biodiversidade e abundância de recursos naturais. Com isso, poderia alinhar preservação ambiental e ganho econômico, ao realizar a valoração de ativos ambientais e integrar mercados e iniciativas que já são implementados em todo o mundo. Ao continuamente abrir mão dessa posição estratégica importante, trazemos prejuízos ambientais e econômicos para o país.


COLUNA PUBLICADA PELA FOLHA DE S.PAULO 


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Precisamos escolher entre economia e meio ambiente?



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A natureza não tem preço… mas precisamos dar um

Todo mundo escuta que a natureza não tem preço. Afinal, se paramos para pensar em todos os benefícios dos serviços ecossistêmicos, parece mesmo que o valor do meio ambiente é incalculável. Mas, como economistas, estamos o tempo todo querendo dar um valor monetário para seus recursos. Em economês, isso se chama “environmental valuation” ou "valoração ambiental".

Talvez não seja ético querer atribuir cifrões para serviços ecossistêmicos. E mais, talvez fazer isso seja reduzir a natureza ao papel de servir o homem, ou, em outras palavras, ter uma visão antropocêntrica do mundo. Individualmente, não somos capazes de ter compreensão sobre o valor para biodiversidade, ar limpo, regulação do clima etc.  

Ainda assim, vamos fazer isso. Para além da discussão ética, dar um valor de mercado para a natureza é altamente necessário. E esse preço, em muitas situações, precisa ser monetário.

Vamos imaginar que o governo de uma cidade pequena tenha um recurso gerado da arrecadação de impostos, e precisa decidir como vai alocá-lo no orçamento. Será que é melhor usar esse dinheiro para dar crédito a pequenos empreendedores na cidade e, com isso, estimular a economia; para a construção de uma nova escola; ou para o reflorestamento de uma área abandonada?

É difícil comparar essas coisas. Primero porque, enquanto conseguimos imaginar qual pode ser o retorno econômico de crédito para empreendedorismo comparando, por exemplo, com o aumento do PIB resultante de um programa análogo em um município vizinho, ou de se investir em educação – olhando para um possível aumento da expectativa de salário dos alunos que concluem seus estudos –, não temos ideia do valor gerado pelas novas árvores.  

Claro, sabemos que elas vão sequestrar carbono e contribuir para a mitigação das mudanças climáticas. Sabemos também que elas podem ser muito apreciadas pelos moradores locais, que vão desfrutar de acesso mais fácil a um parque. Se essa área for entre uma estrada e uma zona residencial, podemos imaginar também que ela traga o benefício da redução da poluição auditiva na cidade. Mas apenas listar os benefícios da floresta não é o suficiente para torná-la comparável com as outras alternativas. Dar um valor monetário para esses benefícios é uma forma de fazer isso. Assim, o governo pode saber qual é o benefício de cada uma das alternativas, compará-lo com seu custo, e estão escolher a alternativa de alocação mais custo-efetiva – aquela que vai gerar o maior benefício pelo menor custo.

Economia é o estudo da alocação dos recursos escassos, para fins externos. A valoração pode ser entendida como uma das ferramentas da economia, usada para tornar fins externos comparáveis quando falamos de recursos naturais e, com isso, decidir como alocar esses recursos da melhor forma.

Pode parecer contraditório, mas dar um preço para o meio ambiente pode justamente auxiliar em sua proteção, manutenção e sustentabilidade. Se existe um valor monetário, comercializado, de mercado, para uma floresta em pé, vai haver um incentivo econômico contrário ao desmatamento. Se existe um custo atrelado com a poluição, empresas terão incentivos econômicos para emitir menos poluentes. 

Dar um preço para a natureza é, também, uma forma de gerar renda para preservação. De remunerar quem auxilia nisso, cobrar de quem polui e tornar mais rentável preservar o meio ambiente do que explorá-lo. Isso pode contribuir para gerar empregos e trazer crescimento econômico, como comentamos em textos anteriores do Por Quê?.

Já falamos sobre vários instrumentos econômicos que têm essa lógica por trás, como impostos, subsídios e créditos de carbono. A pergunta agora é: como economistas vão decidir esse preço? Como vão falar que valor deve ser dado para um imposto sob carros para diminuir poluição? Ou quanto deve ser dado como pagamento para fazendeiros que plantarem árvores? Ou quanto vale um crédito de carbono? 

Responder a essas perguntas não é uma tarefa fácil, e envolve, muitas vezes, o uso de diversas técnicas diferentes de valoração, como análise de custo de benefício, cálculo de custos de viagem (travel costs), modelos de preços hedônicos (stated preferences), entre outros. Nesse mês, a Plataforma Intergovernamental de Política Científica sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IBES) está lançando um relatório sobre valoração da biodiversidade, com um capítulo inteiramente dedicado aos diferentes métodos utilizados para isso. Normalmente, a escolha de qual utilizar depende de vários fatores, como o tipo de ativo ambiental de que estamos falando, o tipo de instrumento, o tipo de mercado, o local etc. E nem sempre há consenso quanto aos métodos, principalmente entre economistas e pesquisadores de outras áreas.

Além disso, é importante lembrar que muitos métodos em geral estão subestimando o valor dos recursos naturais, já que dificilmente levam em conta benefícios não tangíveis, como por exemplo o valor espiritual de uma floresta para uma comunidade indígena.

Ainda assim, alguma forma de valoração ambiental é preferível a não dar esse preço e, com isso, fazer com que ativos ambientais sejam preteridos em relação a alternativas com ganhos econômicos contabilizados. O Brasil, por exemplo, conta com uma enorme biodiversidade e abundância de recursos naturais. Com isso, poderia alinhar preservação ambiental e ganho econômico, ao realizar a valoração de ativos ambientais e integrar mercados e iniciativas que já são implementados em todo o mundo. Ao continuamente abrir mão dessa posição estratégica importante, trazemos prejuízos ambientais e econômicos para o país.


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